Existe esperança em Cabo Verde

No aeroporto do Mindelo, aguardando conexão para a cidade da Praia onde, logo mais, apresentarei meu solo “Todos os Sonhos do Mundo”.

Cabo Verde pra mim é como Cuba, eu sempre sinto que deixo família aqui. Na verdade, até deixo mesmo. Tenho afilhada aqui, não tenho? Uma parte (muito boa de mim, é bom dizer) vive aqui. Há poucos lugares no mundo que te trazem isso, essa sensação familiar, como se a gente compreendesse tudo, como se nada fosse exatamente novidade.

Não sinto isso em alguns lugares que morei, por exemplo. Não sinto – talvez nunca tenha sentido, embora ame e ame muito – que Curitiba seja a minha casa. Nem Lisboa, outra cidade que morei por muito tempo. Claro que há intimidade – e muita! – com esses lugares. Afinal, são duas cidades que me formaram e me viram crescer. Claro que cada uma em um tempo. Mas, nos dois casos, divisores de águas.

Talvez porque Cabo Verde tenha a morna e quem compreende a morna de verdade entende o que estou falando. Ser cabo-verdiano é um jeito de estar na vida e no mundo. Como o cubano. Tanto um quanto o outro, trazem um jeito aí diferente de se perceber o mundo.

Por exemplo: em Cabo Verde não existem shoppings. Pelo menos do jeito que a gente entende aí no Brasil. Não se vê por aqui essa ânsia insana do capitalismo. Você não chega numa loja de sapatos e vai encontrar milhões de opções para comprar o seu.

Mas não é só esse desprendimento com o capital que me encanta. Tudo é muito mais simples para os cabo-verdianos. Há uma esperança e crença no outro. Pro povo daqui não tem tempo ruim, não. É sempre tempo de arregaçar as mangas e recomeçar.

Nunca me esqueço de uma história de muitos anos atrás, quando conheci o país. No interior da Ilha de São Nicolau, encontramos uns agricultores semeando feijão, na encosta de uma montanha, numa das áreas mais secas da ilha. Eles nos contaram que faziam isso todos os anos e todo ano perdiam o trabalho para a seca. Há sete anos não chovia por ali.

— Mas por que insistem nisso, então? – indaguei. Ao que o senhor respondeu:

— E se chover desta vez? Se chover vai compensar o trabalho de todos esses anos.

Essa esperança cabo-verdiana eu também encontro nos cubanos. E acho que esperança assim não existe em muitos outros lugares do mundo.

Algumas curiosidades sobre Cabo Verde que talvez vocês nem imaginem: não existe um único rio nas dez ilhas do arquipélago e nem bicho nativo também, além de alguns pássaros migratórios. O país tem 500 mil habitantes e, antes dos portugueses chegarem aqui no século XV, não havia nenhuma vida no arquipélago.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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