Encontros que inventam futuro

Acabamos ontem a primeira temporada de Quase Todos. E ainda há, no corpo, uma espécie de eco. A peça, agora, muda de lugar. A partir do dia 30 de abril estaremos em cena no Espaço dos Satyros, na Praça Roosevelt.

Esta peça foi, talvez, o nosso trabalho mais confessional. Meu e do Rodolfo García Vázquez. Não no sentido de revelar segredos, mas no de não esconder nada. Abrimos o coração. E isso não é uma metáfora simples. Abrir o coração é aceitar que o que sai não vem organizado. Vem com arestas, contradições, zonas de sombra. Vem com aquilo que, durante muito tempo, a gente aprendeu a domesticar.

Talvez a experiência analítica tenha nos preparado para isso: não recuar diante dos próprios fantasmas. Olhar de frente os nossos demônios e, mais do que isso, reconhecer neles alguma forma de vida. Porque até os monstros, quando a gente sustenta o olhar, revelam uma certa ternura. Não deixam de ser monstros, é verdade. Mas deixam de ser apenas ameaça.

Foi um processo atravessado por intensidades. Houve peso, houve tristeza. Mas houve também uma leveza que não é o oposto do peso. É a sua elaboração. Como se sentir, de fato, abrisse um espaço de respiração. E aí me lembro sempre: o ódio também é afeto. Talvez um dos mais difíceis de sustentar. Mas sem ele, o amor seria raso, sem relevo, sem história.

Talvez o mais bonito desta história seja isto. No meio dela, houve encontros.

Trabalhar com Gabriela Flores e Thiago Ribeiro foi uma dessas experiências que escapam a qualquer planejamento. Ainda estudantes da SP Escola Superior de Teatro e, ao mesmo tempo, já inteiros em cena, disponíveis, presentes, vivos.

Thiago estreava profissionalmente. Veio da Bahia com uma delicadeza firme, mas também com uma força impressionante. Foi um companheiro de cena raro, daqueles que a gente reconhece como irmão mais novo, quase filho. E Gabi… há nela uma energia que incendeia. Uma doçura que não é fragilidade, é força em estado de afeto. Os dois chegaram quando tudo ainda era incerteza. E foram ficando. Como quem entende, sem precisar dizer, que certas histórias se constroem no convívio, no tempo compartilhado, no risco.

Não era a primeira vez que eu trabalhava com quem veio das formações dos Satyros. Diego Rifer, André Lu e Tai Zatolinijá tinham atravessado esse caminho conosco, nas Oficinas. Mas, agora, havia algo de inaugural. Não era apenas continuidade. Era também deslocamento, um instante em que o tempo se dobra e a gente percebe que aquilo que ajudou a formar já está, agora, nos formando de volta.

E isso é de uma beleza difícil de explicar.

No fim, talvez seja simples. Muito mais simples. A gente vai se aproximando. Vai se deixando tocar. Vai reconhecendo no outro alguma coisa que, até então, estava sem nome. E, nesse movimento quase invisível, o mundo vai se compondo. Não por grandes gestos. Mas por esses encontros. Então, de repente, o futuro aparece em sua forma mais concreta: a criação. Linda, inteira e sem reservas.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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