Cuba, pra mim, não cabe em uma opinião.
Eu poderia começar dizendo que não tenho posição sobre o regime de governo cubano. E, de fato, não tenho uma posição fechada. O que tenho são camadas. Reconheço, sim, conquistas que impressionam, sobretudo na saúde, na formação médica, na capacidade de um país pequeno produzir um sistema que, apesar de tudo, ainda respira. Mas também reconheço o peso das restrições, das liberdades no plural – porque não se trata apenas de uma liberdade, mas de muitas, pequenas e grandes, cotidianas, às vezes invisíveis até que faltem.
Há algo que sempre me atravessou em Cuba: a inteligência do seu povo. Uma erudição que não é exibicionista, mas incorporada. Está no modo como se fala, como se lê, como se pensa o mundo. Cuba é um país onde a cultura não é ornamento. É estrutura.
Estive lá muitas vezes. Sempre trabalhando. Cuba, para mim, nunca foi um destino turístico. Foi um território de encontro. De aprendizagem, antes de tudo. Um lugar onde o teatro encontrou o teatro. Onde palavras atravessaram línguas e voltaram transformadas.
Meu texto Faz de Conta que Tem Sol Lá Fora ganhou outra vida ali, como Hazte Idea de que Hay Sol Allá Afuera, alguns anos atrás. Ganhou edição em livro e leitura dramatizada. Há algo de profundamente comovente nisso – ver um texto seu ser dito em outra língua, em outro corpo, em outro tempo. Como se ele deixasse de ser seu e passasse a pertencer ao mundo.
Também fizemos um teleteatro para o Canal Educativo – e há algo de bonito nessa ideia de uma televisão que ainda acredita na educação como eixo. Um gesto que, mesmo atravessado por contradições, não deixa de ser um gesto.
Nos apresentamos ali muitas vezes. Nas salas de teatro mais importantes do país. Cosmogonia – Experimento Nº 1, Liz, Pessoas Perfeitas, A Casa de Bernarda Alba. Cada espetáculo encontrava um público atento, curioso, profundamente disponível. Havia sempre uma escuta rara. Dessas que não se aprende, mas se cultiva ao longo de uma história.
E sempre houve, sobretudo, as pessoas.
O casal Reinaldo Montero e Sahily Moreda Gallardo sempre foram nossos grandes anfitriões. Mas “anfitriões” talvez seja pouco. Eram – são – pontos de ancoragem. Daqueles que fazem um país deixar de ser estrangeiro.
Por isso, quando hoje chegam as notícias, não chegam como informação. Chegam como inquietação.
Porque o que está acontecendo em Cuba agora não é apenas um evento político. É uma espécie de desgaste prolongado. Uma tensão que já não se sustenta apenas no discurso.
Nos últimos anos – e com mais intensidade recente – o país tem vivido uma crise profunda. Falta energia elétrica com frequência, há apagões que reorganizam o tempo das pessoas. Falta comida, falta combustível, falta o básico. As filas, que já eram parte da paisagem, tornaram-se ainda mais longas, mais incertas. A moeda perdeu estabilidade, e o cotidiano passou a exigir uma espécie de engenharia permanente da sobrevivência.
Muitos cubanos têm deixado o país. Não como quem parte em busca de aventura, mas como quem tenta escapar de um esgotamento. É uma diáspora silenciosa, mas visível. Jovens, sobretudo, que já não encontram ali um horizonte possível.
Ao mesmo tempo, o Estado endurece em alguns aspectos, tentando manter controle sobre um tecido social que já não responde como antes. E a população – que durante décadas sustentou uma impressionante capacidade de adaptação – parece, agora, atravessada por um cansaço novo. Um cansaço que não é apenas físico, mas histórico. E então Cuba se torna, mais do que nunca, uma incógnita.
Não no sentido de mistério exótico, mas de encruzilhada real. Um país que precisa se reinventar sem perder aquilo que o constitui. Mas como fazer isso? Como transformar sem romper? Como abrir sem dissolver?
Eu não sei.
O que sei é que, para mim, Cuba nunca será apenas um regime. Será sempre um conjunto de rostos, de vozes, de textos atravessados, de noites longas conversando sobre teatro e sobre vida.
E talvez seja isso que mais doa. Perceber que, por trás das análises, das posições e dos discursos, há um país inteiro tentando, ainda, imaginar o seu próprio futuro.
Como quem insiste – apesar de tudo – em acreditar que ainda pode haver sol lá fora.
