CRÍTICA | Tânia Brandão analisa “Uma Peça para Salvar o Mundo”

Ao Sabor das Letras

O autor morreu. Foi-se. Acabou. Uma leva de gente antenada com o mundo das artes sustenta esta bandeira. No teatro, então, as formas de acontecimento da arte acarinhadas pelo presente apontam nesta direção: a plateia escreve a trama com o artista.

Não se trata, no caso, apenas de participação, pura e simples, mas de integração.  Ou de subsunção.  O público não é manipulado mecanicamente pela cena, como se fosse marionete. O novo desenho quer dizer algo mais complexo – se o teatro é feito para o público, nada mais natural do que o ato do público de fazer o teatro.

Vai longe o tempo da quebra da quarta parede. Perdido numa época remota está o velho número de plateia, a vedete sentada no colo do senhor pomposo para desespero de sua esposa e, em alguns casos, constrangimento total do homem formal tímido.

O tom e a partitura, agora, seguem outro caminho, o público faz a cena – ainda que sob a afinação, mais ou menos disfarçada, do palco. De certa forma, a personagem teatral desceu aquela imensa escadaria que fazia com que ela se projetasse a partir de um espaço outro, o espaço de ficção. Ela rasgou a fantasia, limpou a maquiagem.

Submersos na realidade, uma realidade complexa e magnética, fluida, os espectadores querem mais realidade, nenhum sonho, nenhuma abstração. Querem afinal, uma realidade direta: a sua.

Algum espírito mais radical, implicante mesmo, pode até decidir celebrar a morte definitiva do teatro, sem choro nem vela, nem mesmo um modesto caixão. Neste caso, conclui-se que acabou o autor, mas que não se pense que a coisa vai ficar por aí – o resto do velho edifício virá abaixo em seguida. Pronto, o teatro acabou.

Nesta projeção apocalíptica, o teatro do futuro acontecerá na casa de cada um, na frente do espelho, a criatura conversando com sua imagem refletida, como se ali estivesse contida toda a história importante para ser contada. Os mais modernos na certa qualificarão este devaneio como uma pobre elucubração reacionária: a poesia justamente transcende o indivíduo e ela está sendo apenas e tão somente reinventada.  O teatro continua.

Bom, o debate está em cena, bem no meio da cena, ali naquele ponto outrora ocupado exclusivamente pelo velho primeiro ator. O tema aparece – impactante e comovente – no último espetáculo estreado pelos Satyros, teatroon, Uma peça para salvar o mundo.

Vale a pena mudar o nome da nova definição da arte, teatron, escrever a palavra com mais um o, teatroon. Pois, precisamente nesta peça, o teatro está on por acontecer como uma forma elevada de integração do espectador à cena.

Aliás, vale a pena tentar saber de onde veio a invenção tão peculiar proposta pelo conjunto. Nenhum grupo ou companhia esteve tão ativo durante a pandemia como os Satyros – acontece agora a sua 11ª estreia no período de recesso. É muito trabalho, um belo e nobre trabalho. Vale visitar o site e constatar a grandeza da obra assinada pela equipe.

Pois exatamente neste lugar está a chave de entendimento da proposta. A mistura de trabalho intenso com obsessão pelo palco parece ter gerado um raciocínio muito especial a respeito da necessidade de diálogo, hoje, do teatro com o público.

O coquetel gerou a nova produção, um resultado muito forte, a tentativa de transportar a espiral de perguntas humanas que estruturam a arte para o interior de cada espectador. O formato rasga a noção de plateia, conjunto eventual e informe de pessoas, e flerta com a noção de cidadão – consciência cidadã, ser no mundo, vida com assinatura identificada.

Portanto, a nova produção dos Satyros é um marco na História do Teatro Brasileiro. Traz o novo de uma forma surpreendente. Aponta para um futuro ainda impreciso, porém perceptivel. Trata-se de um momento muito importante do teatro virtual: não deixe de ver.

A proposta nasceu de uma imensa ousadia. Na concepção primeira, projetou-se uma enorme ruptura: fazer uma peça sem atores, apenas com a plateia seguindo comandos da equipe, talvez homens regidos por máquinas.

De certa forma, o que acontece na tela guarda a sombra deste desejo, apesar da existência de um mestre de cerimônias, uma máquina-gente, regente da noite. O espetáculo não é gravado, ele acontece. E muda completamente, claro, a cada apresentação, ao sabor da resposta do público aos desafios propostos.

Há um conjunto de materiais prévios concebidos ou reunidos por  Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, que assinam a dramaturgia. A direção é de Rodolfo García Vazquez e impõe uma linha clara de evolução. Em cena, sob um filtro e uma tela capazes de transformá-lo numa curiosa máquina de falar e, talvez, sentir, está o ator Thiago Mendonça.

O material concebido como “dramaturgia” – e talvez seja importante pensar este nome – consiste num rol de perguntas simples, diretas, que o público deve responder, usando o recurso do bate-papo. As perguntas exploram verdades de vida antenadas com as inquietudes atuais.

Há também um conjunto de imagens fortes do presente, a maioria desconcertante. As imagens surgem como provas irrefutáveis de nossa falência enquanto seres humanos. Somos precários, vivemos cercados por graus variados de miserabilidade, moral, material e humana.

Portanto, a montagem conduz o público a esta percepção: a miséria existencial geral em que vivemos. Mas aponta para uma réstia de luz, a possibilidade de nos tornarmos protagonistas do ato de existir, dignos das demandas fundamentais da vida.

Ao se submeter a um processo tão intenso de indagação interior, o público se torna, a um só tempo, autor e texto do espetáculo. A dimensão da transformação não pode ser constatada: cada um leva dentro de si, para si, uma experiência única.

Um belo contraste surge no panorama teatral se considerarmos, ao lado da proposta dos Satyros, a estreia do dia 30 próximo, a peça Angustia-me!, de Julia Spadacini e Marcia Brasil, autoras, digamos, convencionais.

Aqui está sob o foco um núcleo denso de sentimentos correntes no agora, a névoa espinhosa que compartilhamos. Mas são as autoras que escrevem o drama que seria nosso ou de muitos de nós, a vasta sombra da angústia.

A comédia dramática, dirigida por Alexandre Mello, mergulha na angústia de seis personagens. Não por acaso eles se encontram em situações inusitadas, eficientes para que compartilhem suas neuroses, inquietudes, pequenas vitórias e derrotas. Situações-limite parecem ser bons pretextos, hoje, para que se possa contemplar os impasses mais surpreendentes ao redor.

O elenco, numa mistura heterogênea, congrega nomes mais experientes e outros mais jovens na profissão. Estão em cena Fábio Ventura, Leandro Baumgratz, Maria Adélia, Noemia Oliveira, Raquel Rocha e Rogério Garcia.

O formato de apresentação também é o teatroon, mas, neste caso, pré-gravado, para curta temporada no Youtube, com a mistura das linguagens do cinema e do teatro.

Seguindo as convenções da dramaturgia, são seis personagens envolvidos em três histórias, portanto tramas  desenvolvidas sob a relação convencional entre protagonista e confidente. As cores, contudo, são tragicômicas, os tons exploram as possibilidades do inusitado.

Assim, brotam perguntas. Se existe autoria formal, ela segue os cânones? Como se pode pensar a presença do autor na obra? Na realidade, nesta proposta o dramaturgo se manifesta como vontade de auto apagamento: a sua fabulação, que não consegue mais enveredar pelos grandes temas, aparece dissimulada sob recortes do cotidiano, materializações do homem comum, ainda que os seres da cena tenham traços fortes inclinados à exceção.

Por dedução lógica, constata-se, o autor está entre parênteses. Vale estudar e pensar a respeito: no teatro virtual, a concretude do espectador tem se tornado letra forte, a carne da cena se tornou distante dos velhos grandes voos da fantasia ou da fabulação. O domínio é o do imediato.

Parece curioso ter, no ar, um teatro terrestre. Assim, faz muito sentido a cena se estruturar ao redor da morte do autor, sob diferentes matizes. Ao que tudo indica, estamos diante do fim de uma tradição poética singular, com o despertar de formas de existência – e de autoria – plurais.

FICHA TÉCNICA

UMA PEÇA PARA SALVAR O MUNDO
Direção Geral: Rodolfo García Vázquez
Dramaturgia: Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez
Assistente de Direção: Cadu Cardoso
Atuante | Mestre de Cerimônia convidado: Thiago Mendonça
Abertura: Ivam Cabral
Designer: Henrique Mello
Fotografia: André Stefano
Produtor: Silvio Eduardo
Assistente de Produção: Janna Julian
Secretariado e Social Media: Isabella Garcia
Administração: Rodolfo García Vázquez
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

SERVIÇO

UMA PEÇA PARA SALVAR O MUNDO
– transmissão ao vivo e online –
TEMPORADA: 23 de abril a 17 de maio
SESSÕES: sextas, sábados e segundas, às 19h; domingos, às 16h
INGRESSOS: GRATUITOS E R$10,00
RETIRADA DE INGRESSOS: Espaço Satyros Digital www.sympla.com.br/espacodigitaldossatyros
Classificação: 16 anos | Duração: 45 min | Gênero: drama

FICHA TECNICA

ANGUSTIA-ME!
Escrito por Julia Spadaccini e Marcia Brasil
Direção: Alexandre Mello
Elenco: Fábio Ventura, Leandro Baumgratz, Maria Adélia, Noemia Oliveira, Raquel Rocha e Rogério Garcia
Diretor de fotografia: Alyrio Tkaczenko
Direção de produção: Rogério Garcia
Produtora executiva: Anna Sant´Ana
Iluminadora: Carmen Slawinski
Cenografia: Julia Deccache
Figurinos: Ticiana Passos
Trilha sonora original: Marcello H
Produção audiovisual: Rogério Garcia e Anna Sant´Ana
Som direto: Igor Tkaczenko
Editor e colorista: Alyrio Tkaczenko
Decupagem: Alexandre Mello
Primeira assistente de direção: Anna Sant´Ana
Segundo assistente de direção: João Faria
Preparação corporal: Bella Lomez
Assistente de produção: Tom Souza
Visagismo: Maria Adélia (“A morta”) e Cora Marinho (“Não fume” e “Porno gay”).
Assistente de visagismo: Betta Souza
Cenotécnico: Renato Darin
Cenotecnia: Djavan Costa, Regivaldo Moraes e equipe
Costureira: Deonirva Scarpari
Projeto gráfico: Raquel Alvarenga – Studio Janela Aberta
Assessoria de imprensa: Rachel Almeida – Racca Comunicação
Prestação de contas: Rogério Garcia e Anna Sant´Ana
Realização: Escambau Produções e Usina D’Arte

SERVIÇO:

ANGUSTIA-ME!
Temporada: 30/4 a 30/6
Estreia: 30/04, às 20h
Ingressos: O espetáculo ficará disponível gratuitamente no Youtube a partir da estreia, com ingressos retirados pelo Sympla: https://www.sympla.com.br/angustia-me
Bate-papos:
30/04 (Após a sessão) – Bate-papo com o elenco e a equipe
02/05 (20h) – Bate-papo com o diretor Alexandre Mello e as autoras Julia Spadaccini e Marcia Brasil
07/05 (20h) – Bate-papo com o elenco
09/05 (20h) – Bate-papo com os produtores Rogério Garcia e Anna Sant’Ana e com a cenógrafa Julia Deccache

Fonte: Coluna de Segunda de Teatro, 27 de abril de 2021

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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