CRÍTICA: OS SATYROS RESGATA SUBMUNDO GAY ROMANO COM SATYRICON

Por: Hélio Filho

Quatro homens em um paredão lado a lado se masturbando, ou masturbando os outros, enquanto o mais espertinho deles rouba a carteira do menos atento. Poderia ser os dias atuais, mas se trata da Roma Antiga, na época do imperador de sexualidade questionada até os tempos atuais Nero, aquele que coloca fogo na cidade. Uma época decadente retratada na primeira cena do novo projeto da Cia Paulistana de Teatro Os Satyros, “Satyricon”, em cartaz em São Paulo.

Obra da literatura latina de autoria do prosador romano Petrônio, a mais famosa das novelas romanas foi escrita provavelmente próximo do ano 60 d.C., descrevendo as aventuras e desventuras do narrador, Encólpio, do seu amante Ascilto e do belíssimo servo, o jovem Gitão, que se intromete entre os dois amantes provocando ciúme e discussão.

A montagem paulistana ganhou um super elenco com pelo menos 32 atores que narram a tragédia de Encólpio, castigado pelos deuses em sua virilidade após profanar o templo de Príapo, o deus da fertilidade representado por um pênis. Impotente, ele vê seu belo Gitão ir embora com o amante mais jovem, mais cheio de vitalidade e com mais potência sexual. Gitão gosta de ser dominado e procura um homem que o faça se sentir assim.

O destino do gladiador traído vai ganhando cada vez mais contornos de drama, de coisa proibida que não pode ser realizada, o que faz a ausência do ser amado ficar cada vez maior. Ele tenta de tudo para voltar a ter a potência sexual de outrora para reconquistar seu jovem amante, apela à magia e chega a deitar na cama da belamente mítica Circe, a mesma que manteve Homero (“Odisseia”) preso longe de sua casa e de sua família.

Considerada uma das mulheres mais belas do mundo, nem ela consegue fazer o protagonista voltar a ficar teso. E em um dos momentos mais engraçados de toda a sátira à sociedade romana daquele tempo, Circe em versão transex despreza o amante fracassado e dispara: “Eu não preciso de você. Sabe por quê? Porque eu sou rica!”. Sim, é uma alusão à Norma, personagem de Carolina Ferraz na novela “Beleza Pura”.

Em seu caminho por recuperar sua masculinidade plena, ele encontra preconceito, homofobia e um submundo onde banquetes como o do famoso novo rico romano Trimalquião são constantes – e ótimas oportunidades para homens transarem com homens, mulheres com mulheres e, em menor intensidade, homens com mulheres.

A produção é dividida em três partes, “que podem ser vistas separadamente sem nenhum prejuízo”, avisa o diretor, Rodolfo García Vázquez. A primeira delas é a Trincha, uma instalação sensorial espalhada por todo o espaço do Satyros, na Praça Roosevelt. A segunda é a peça em si. Já a terceira é a Suburra (sim, vem daí o nome do sexo em grupo), “uma peça interativa, uma festa com peça, ou uma festa maluca mesmo”, classifica Rodolfo..

Fonte: Mix Brasil, 20 de junho de 2012

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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