Na semana passada, Marilia Marton fez algo que, em tempos de cansaço institucional e desconfiança crônica, beira o milagre: juntou gente. Gente de verdade. Gente que faz. Gente que insiste. No edifício imponente da Sala São Paulo – esse templo erguido para a música, mas que naquele dia respirava política pública – mais de quinhentas pessoas vieram de […]
Onde as Dúvidas Aprendem a Respirar
Com o retorno às aulas, a SP Escola de Teatro acende suas luzes. Não apenas as do prédio, mas aquelas outras, mais delicadas, que se acendem por dentro. Há um brilho discreto no ar, uma espécie de eletricidade mansa: o estado gostoso da novidade. As coisas ainda não têm nome, mas já pedem atenção. Os […]
O afeto como linguagem ou A falência da razão sem afeto
Há países que desconfiam das lágrimas. Talvez porque sejam lidas como excesso, falha de cálculo ou ruído perigoso no projeto de civilização. A Alemanha moderna – essa que tentou se reconstruir a partir das ruínas do horror – carrega uma relação ambígua com as emoções. Não por acaso, há vasta documentação histórica mostrando como o […]
Sobre ciclos, escolas e escutas
Passei a vida inteira no teatro. Profissionalmente, quase quarenta anos. O teatro como casa, como linguagem, como modo de existir no mundo. Depois, a educação. Ou talvez ela sempre estivesse ali, disfarçada de ensaio, de sala escura, de conversa depois da apresentação. Os últimos vinte anos foram dedicados à descoberta de um território surpreendente: não […]
CARTA AOS ESTUDANTES DA SP ESCOLA DE TEATRO
Queridas e queridos estudantes, Escrevo como quem abre uma janela. Não para ensinar o vento a soprar, mas para lembrar que ele existe e que, às vezes, basta encostar o rosto para sentir que estamos vivos. É de vida que venho falar agora. Daquela que treme, que erra, que pulsa sem pedir licença. Da […]
Por onde ainda respiramos
A semana passou como um ciclone, literalmente. Fez barulho, iluminou janelas e iluminou portas alheias, também. Ainda seguiu deixando atrás de si uma vibração difícil de processar. Porque, mais uma vez, o mundo falou alto. Nem sempre com palavras, é bom sublinhar. Nos Estados Unidos, em Minneapolis, a história voltou a bater à porta com punhos […]
ORELHA | Quando a dor não tem nome ou Notas sobre a indignação
Só agora consigo falar do Orelha, o cachorro. E talvez falar seja um verbo generoso demais para o que ainda é, em mim, um nó. Sei pouco dessa história. E sei por escolha. Não vi vídeos, não procurei imagens, não me deixei capturar pelos detalhes mais explícitos da crueldade. Há tempos em que a gente […]
Ribeirão Claro, em letras garrafais
Ribeirão Claro voltou a existir fora do mapa afetivo e entrou, de novo, no mapa duro da política nacional. Na edição da Folha de S.Paulo de hoje está ela, minha cidade natal, em letras grandes demais para caber no silêncio das manhãs do interior: “Justiça pagou seguranças em cidade de resort frequentado por Toffoli.” A […]
PATERNIDADE | Livro novo chegando
“O Que Fica Quando Tudo Passa – Anotações de um pantopolista paulistano” ainda é um título provisório do meu novo livro de crônicas, o terceiro da minha história. O primeiro, “Terras de Cabral – Crônicas de Lá e Cá”, publicado em 2013, nasceu de um desejo quase juvenil de organizar o mundo pela escrita: juntar memórias, deslocamentos, […]
RÉPLICA | Quando a leitura escapa do texto – e o ruído toma o lugar do sentido
Escrevi sobre uma cidade. Alguns leram um governo. Escrevi sobre uma experiência concreta. Alguns ouviram uma defesa que nunca fiz. Talvez seja um sinal dos tempos. Qualquer tentativa de pensamento que não se alinhe imediatamente a um dos lados do ringue é recebida como suspeita. A leitura vira julgamento; a reflexão, torcida. Não escrevi para […]
