Eu e Rodolfo nos refugiamos na nossa casinha no meio do mato, em Parelheiros, para atravessar o Ano Novo e escrever um novo texto. Um espetáculo que estreia em março, mas que vinha sendo gestado muito antes. Há meses vínhamos ensaiando, pesquisando, conversando sem saber exatamente onde aquelas conversas iam dar. Assistimos a muitos filmes, ouvimos muita música, lemos uma infinidade de textos. O argumento já existia. O primeiro caminho também. Faltava o corpo.
Então, entre o Natal e o Ano Novo, parimos um texto novo, Quase Todos.Uma peça para falar de família. De memória. Daquilo que se herda sem perceber. Do que se perde tentando sobreviver. De quem fica. De quem vai. De quem precisa lembrar pelos outros quando já não dá mais.
É engraçado como isso acontece. Existem textos que não se escrevem. Eles se deixam escrever. E foi exatamente assim que Quase Todos nasceu. Não como uma ideia solta, mas como algo que já vinha vivendo dentro da gente há algum tempo. Sabíamos do que queríamos falar. Memória, família, aquilo que permanece quando quase tudo vai embora. O resto era escuta.
Nos isolamos em Parelheiros – com Lupita e Bernardo – não como quem foge do mundo, mas como quem precisa silenciar o excesso para ouvir o essencial. A cidade ficou longe. O sinal falhava. O tempo desacelerou. E, curiosamente, foi ali que o tempo começou a trabalhar a nosso favor.
Escrevemos a quatro mãos. Às vezes a mesma frase. Às vezes o silêncio entre uma frase e outra. Houve dias em que um escrevia e o outro apagava. Em outros, nenhum de nós escrevia nada. E, ainda assim, o texto avançava. Porque escrever também é isso: permitir que a memória faça o seu trabalho, mesmo quando parece que não está acontecendo nada.
Parimos a peça em uma semana.
E digo parimos porque não foi um gesto elegante. Foi físico. Foi exaustivo. Houve dor, insistência, cansaço, alegria súbita, medo de não dar conta. Como toda gestação que importa. Como toda tentativa de dar nome a algo que ainda não tinha palavra.
Enquanto escrevíamos, percebíamos que Quase Todos não falava apenas daquela família ficcional. Falava da nossa. Falava das famílias que conhecemos. Das que sobrevivem à distância. Das que só conseguem existir no desencontro. Das que seguem vivendo através das cartas não respondidas, das promessas mal cumpridas, dos silêncios herdados.
Talvez por isso o texto tenha se organizado em fragmentos. A memória não é linear. Ela volta quando quer. Erra. Inventa. Esquece para suportar. Lembra para não desaparecer. Quase Todos aceitou isso como método e como ética.
Foi um prazer enorme ter parido este texto.
Prazer no sentido profundo da palavra. Aquele que vem depois do esforço, da entrega, da confiança no outro. Escrever junto é sempre um pacto. Um acordo silencioso com o tempo. Um jeito de dizer: eu fico aqui enquanto você vai ali. Depois, a gente se encontra no meio da frase.
Agora, a peça já não é mais nossa. Ela começa a pertencer a quem lê, a quem encena, a quem assiste. A quem reconhece ali uma memória que não sabe exatamente de onde veio, mas sabe que é sua.
No fim, é isso. Nem todos conseguem ficar. Mas quase todos deixam algo.
E, às vezes, isso basta.
