A vida tem dessas manias delicadas. Repete cenas como quem insiste numa frase para ver se, desta vez, a gente escuta melhor.
Estamos em Parelheiros. Um fim de semana qualquer, desses em que o tempo parece andar descalço. De repente, do nada – porque as coisas mais importantes quase sempre chegam assim – surge um cachorro lindo. Igualzinho ao Bernardo. Igual mesmo. Por alguns segundos, a confusão foi real: “ué, mas ele não estava aqui agora há pouco?”. Estava. E não estava. Um era filhote, o outro já carregava no corpo o tamanho e a gravidade de quem conhece o mundo há mais tempo.
Desde então, esse moço – porque ele tem esse ar de moço, de alguém que chega pedindo licença sem saber muito como – passou a ser acolhido pelo afeto coletivo. Ganhou mãos, risadas, comida, presença. Como se o espaço soubesse exatamente o que fazer quando um corpo assim aparece.
E aí a memória acendeu. Quinze anos atrás, quase na mesma época do ano, em janeiro, uma cena parecida se deu ali mesmo. Foi quando Chico chegou. Também do nada. Também como quem não pede, mas se oferece. A vida, às vezes, não cria; ela reedita.
Mas há um detalhe que muda tudo. Quinze anos atrás, eu estava disponível. O tempo tinha outros vazios. Hoje, existem a Lupita e o Bernardo. Existem vínculos já estabelecidos, rotinas, responsabilidades, afetos que ocupam lugar – e ocupam bem. Esse novo cachorro, um husky legítimo, jovem, com um ano, talvez um pouco mais, simplesmente não cabe. Não por falta de amor, mas porque o amor também aprende limites.
Sem contar que há o corpo, sempre ele, lembrando que afeto não é abstração. Ele não é castrado e se apaixonou perdidamente pela Lupita, que acaba de sair do cio. Vive tentando namorá-la a todo custo, como se o mundo coubesse nesse desejo urgente. Lupita, por sua vez, está estressadíssima e eu não posso deixar de protegê-la. Há ainda o ciúme silencioso do Bernardo, esse sentimento discreto que também pede cuidado. De repente, amar não é só acolher quem chega, mas garantir a paz de quem já estava.
O problema é que ele não sabe disso. Grudou. Não desgruda. Anda atrás da gente como se já tivesse escolhido seu destino. Fomos atrás de respostas. Grupo do condomínio, mensagens, perguntas lançadas ao vento. Descobrimos que ele ronda o lugar há semanas. Um corpo em deriva, esperando que alguém o reconheça como casa.
Desde ontem, ganhou comida, beijinhos, um canto na sala para dormir. Ganhou nome. Porque dar nome é sempre um gesto perigoso. Chamamos de Fausto. Talvez porque toda escolha carrega um pacto invisível. Talvez porque ele nos ofereça, sem saber, um dilema existencial disfarçado de rabo abanando.
E aí vem a pergunta, sempre ela: o que fazer? O que fazer quando a vida insiste em se repetir, mas nós já não somos os mesmos? O que fazer quando o coração diz “fica” e a realidade sussurra “não dá”?
2026 chega assim, sem pedir licença, trazendo menos resoluções e mais encruzilhadas. A vida não quer respostas rápidas. Quer presença. Quer que a gente sustente o desconforto de amar sem poder ficar.
Fausto segue por aqui, como um espelho grande demais. E a gente segue tentando entender se repetir é um erro. Ou apenas a forma mais bonita que o tempo encontrou de nos lembrar quem fomos e quem, apesar de tudo, seguimos sendo.
