A mesma praça com outras flores e um novo jardim

Por FLAVIO JACOBSEN 

GRUPO SATYROS RETRATA A CRUEL REALIDADE PAULISTANA A PARTIR DE SUA PRÓPRIA EXPERIÊNCIA NA RENOVAÇÃO DE ESPAÇO PÚBLICO

A peça Pessoas Brutas foi apresentada ao Festival de Curitiba na noite de terça feira dia 5 de abril, no teatro Zé Maria Santos. Pouco antes, pela manhã, o grupo deu entrevista coletiva na sala de imprensa do festival, instalada em uma sala no décimo andar do hotel Mabu, no centro de Curitiba. Protagonizada por Ivam Cabral — autor do texto do espetáculo em parceria com Rodolfo Garcia Vasquez — a entrevista trouxe à tona o processo de criação perpetrado pelo grupo, que vai muito além da montagem de espetáculos.

Os Satyros é uma experiência viva de interação, aprendizado, cidadania e autoafirmação, impondo a cultura como chave que abre portas de percepção da realidade. O grupo, que começou nesta mesma Curitiba ainda nos anos da década de 1990, concorreu empreitada significativa, muito especialmente quando transportou sua sede para a cidade de São Paulo, ocupando um pequeno espaço na praça Roosevelt, na área central da capital paulista.

Os problemas enfrentados foram diversos, pois o grupo partiu do preceito de que não se deve excluir — ou “gentrificar”, como reza o termo atual para exclusão das classes menos favorecidas de um determinado local — mas antes de tudo integrar. Assim, desde o começo dos anos 2000 a praça que até então encontrava-se entregue única e exclusivamente ao tráfico e à prostituição, passou a dividir seu liquidificado espaço com músicos, atores, escritores, skatistas, travestis, boêmios de toda sorte e até crianças nas tardes de sábado e domingo. Tudo a partir do bar-teatro construído pelo grupo. Quanto aos problemas, vieram desde as autoridades até ameaças de traficantes que ocupavam a área e se sentiram vilipendiados. Tudo foi contornado a contento. A palavra de (nova) ordem era “respeito”. E a coisa andou.

A “rusvel” passou a ser referência na cena cultural da cidade — e do país. Aos poucos juntaram-se outros grupos, como os Parlapatões (que também trouxeram três peças ao 30º Festival de Curitiba) que montaram tal e qual seu bar-teatro, com programação ininterrupta, e a turma do Cemitério de Automóveis que passou a “bater cartão” na praça e também a se apresentar nos teatros do lugar.

O grupo estendeu seus tentáculos para ambientes acadêmicos. Montou a SP Escola de Teatro, que hoje é referência internacional, com sede no Brás, também na zona central da cidade. E de quebra, em plena pandemia, restaurou o icônico Cine Bijou, um cinema de rua na própria praça, que inaugurou suas atividades há alguns meses.

Foi quando o ator Eduardo Chagas tomou a palavra na entrevista que a emoção tomou conta da acanhada sala de imprensa do Mabu. Edu foi às lágrimas ao relembrar do doloroso processo de sobrevivência na pandemia, de como o grupo acabou “inventando” o “teatro digital”, através do qual conseguiu angariar fundos para permanecer em atividade. Daí, Ivam Cabral apresentou aos jornalistas os integrantes que se tornaram atores através do resgate social que o grupo propõe. Um deles saído de uma casa de detenção de menores de SP, e hoje advogado com OAB recém constituída. Daí, as lágrimas trocaram de lado: com os jornalistas em olhos marejados.

À noite, a grande apresentação de Pessoas Brutas enfim. Uma trama muito bem costurada. A partir do sequestro da filha de um doleiro denunciado na Operação Lava Jato, os destinos de vários personagens anônimos de São Paulo se cruzam, em uma teia de relações violentas onde buscam desesperadamente figuras heroicas para resgatar suas vidas desesperançadas. Atuações impecáveis de um elenco que joga como um time afiado, há anos. Quem conhece a praça Roosevelt, se reconheceu ali. Quem não conhece, também. Emoção à flor da pele na plateia, na qual podiam-se ver as lágrimas ao fim acachapante do espetáculo.

Os Satyros apresentam ainda Aurora, nos dias 7 e 8 (quinta e sexta), encerrando sua participação no Festival de Curitiba. A trama, dentro dos mesmos preceitos e estética de Pessoas Brutas, conta a história de frequentadores de um pequeno prédio de quatro andares, na Rua Aurora, com oito apartamentos, quase todos ocupados, com exceção de um deles, fechado há muito tempo, sobre o qual ronda uma aura de mistério.

Sexta pela manhã, ainda, Ivam Cabral autografa seu novo livro Entre o Nada e o Infinito, que compila textos teóricos sobre a pedagogia teatral, psicanálise, bastidores do mundo das artes e histórias pessoais do premiado ator e dramaturgo. O lançamento será no espaço Alfaiataria, na rua Riachuelo.

A razão de ser e a alma do teatro estão certamente no trabalho dos Satyros. Se qualquer ser vivente ainda tem dúvidas acerca da importância da arte na formação da cidadania, é preciso conhecer o imenso poder transformador deste distinto grupo, que mantém cerca de 50 pessoas em processo constante de trabalho e profissionalismo.

Eles transformaram uma mesma praça. E vários mundos. Com outras flores, e um sempre novo jardim para que possamos caminhar.

Antes do já tradicional e pertinente brado pela retirada do atual presidente da república, sempre bom o velho grito de “viva o teatro!”. Viva.

Ouça. Leia. Assista:

Pessoas Brutas

5 e 6 de abril – terça e quarta – 21 horas

Aurora

7 e 8 de abril – quinta e sexta – 21 horas

Teatro Zé Maria Santos

13 de Maio, 655 – São Francisco

R$80 – R$40

Lançamento do Livro “Entre o nada e o infinito”, de Ivam Cabral
Local: Alfaiataria Pátio
Data: 08 de abril
Horário: 11h
Mediação: Ruy Filho

Entrada franca

Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e na bilheteria física exclusiva do Shopping Mueller (piso L2), de segunda-feira a sábado, das 10h às 22h; domingos e feriados, das 14h às 20h.

Fotos: divulgação

 

Fonte: Cultura 930

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