𝐄𝐔 𝐒𝐎𝐅𝐑𝐎 𝐃𝐄 𝐏𝐑𝐎𝐒𝐎𝐏𝐀𝐆𝐍𝐎𝐒𝐈𝐀, 𝐀 𝐃𝐎𝐄𝐍Ç𝐀 𝐃𝐀 𝐂𝐄𝐆𝐔𝐄𝐈𝐑𝐀 𝐅𝐀𝐂𝐈𝐀𝐋

Eu acabei falando muito pouco sobre esse assunto. Talvez porque me sentia envergonhado ou amedrontado, ou quem sabe os dois. Mas, engraçado, se tem uma coisa que a idade sabe corrigir são esses constrangimentos. Exemplo bom: demorei quase 20 anos para me assumir bipolar.

Mas semana passada, em uma aula na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, esbarramos sobre o assunto de esquecimentos e eu acabei falando sobre um problema que me aflige. É sobre a prosopagnosia, ou a “cegueira facial”, que vou falar agora.

Meu silêncio tem uma boa explicação. Quando recebi o diagnóstico, em 2012, os estudos ainda relacionavam a doença às condições neuropsiquiátricas, como doença de Alzheimer, por exemplo. Significa que, inicialmente, as suspeitas recaíram sobre alguma demência neurodegenerativa e a notícia caiu sobre mim como uma bomba.

Tudo começou quando eu fui diagnosticado com um tumor no cérebro, em 2011. Visitei os principais neurocirurgiões do país e, em um destes encontros, conheci o Dr. Sonival Cândido Hunhevicz, do Instituto de Neurologia de Curitiba, que, além de ter sido muito atencioso – esta primeira consulta durou cerca de duas horas –, teceu o diagnóstico, construído a partir de uma batelada de exames e testes: além do tumor, eu sofria de prosopagnosia.

Na verdade, a porta para esta questão se abriu quando eu tinha 17 anos e fui para a universidade, onde estudava em uma sala com 40 alunos. Me lembro bem, ao final daquele primeiro ano, nossa turma organizou um encontro em um restaurante e, me recordo como se fosse hoje, do meu desespero ao chegar ao local. Eu só conseguia reconhecer um daqueles 40 rostos, o da Shirley Terezinha que, por acaso, foi minha namoradinha naquela altura.

Esse evento foi terrível porque, longe da sala de aula e de nossas carteiras – nos sentávamos sempre nos mesmos lugares –, parecia que todos ali eram absolutos desconhecidos. Durante muito tempo isso me deixou intrigado. Mas aos 18 anos a gente não se preocupa muito com as coisas e o tempo foi passando. Aprendi, no entanto, a fixar outras características das pessoas, além de seus rostos. A voz, por exemplo. E, por isso, desde então, a audição passou a ser um dos meus instrumentos mais potentes.

Mas o mais complicado mesmo estava por vir. Quando conheci o Rodolfo, eu tinha 25 anos, comecei a assistir a filmes de ação. O Rodolfo ama blockbusters. Até então, minha preferência eram os filmes europeus, de arte, com poucas personagens, quanto mais parados e lentos, melhor. Mas assistir aos filmes do Arnold Schwarzenegger, descobri, então, não eram tarefas simples. Havia muita ação, muitas personagens, e eu terminava as sessões sem entender direito o que tinha visto.

Minha chegada à Praça Roosevelt, então, foi um desespero. Comecei a conhecer muita gente e, a partir daí, as coisas ficaram mais complicadas. Quer dizer, quando eu encontrava essas pessoas na Praça, era mais tranquilo. Mas quando eu saía da Praça e encontrava esse pessoal em outros lugares, meu Deus, que sufoco!

Cheguei a perder amigos por conta deste distúrbio porque não os reconheci em algum momento. Fiz inimizades também. Várias pessoas chegaram a me repreender severamente com frases, tipo, “não acredito que você não vai me cumprimentar” ou como, certa vez, uma atriz veio até mim e disse “você não é o centro do universo, seu metido do cacete”.

Mas existem bons corações, também. A Noemi Marinho é uma que sempre quando chega perto de mim diz “oi, eu sou a Noemi”. E meu coração se enche de ternura. Nunca soube se ela, intuitivamente ou não, entendeu o meu problema. Mas todas as vezes eu tenho vontade de abraçá-la com todo o meu amor.

Aos poucos, como saída, fui me recolhendo. Parei de sair e minha timidez se acentuou. Sim, eu não reconheço rostos. Agora, por exemplo, no exercício de tentar me lembrar de pessoas muito íntimas, não consigo recompô-las em minha cabeça. Aparecem todas sem rosto…

Pouco mais de 10 anos depois de receber o diagnóstico, as pesquisas da prosopagnosia estão mais avançadas. Sei que não estou sozinho.

Mas agora venho aqui, quase como uma atitude pedagógica mesmo. Para alcançar pessoas que sofrem do mesmo distúrbio e dizer que, sim, é possível ter uma vida (quase) normal.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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