MINHA OPINIÃO – WISLAWA SZYMBORSKA ESCREVE POESIA COMO SE ESTIVESSE CONVERSANDO COM A GENTE EM SUA SALA DE VISITAS

A primeira vez que ouvi falar em Wislawa Szymborska foi em Curitiba, nos anos 1990, quando dividia minha vida entre Brasil e Portugal. A coletânea “Quatro Poetas Poloneses”, lançada em 1994 pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, em parceria com o Consulado Geral da Polônia em Curitiba, trazia, além de Szymborska, poemas de Czeslaw Milosz, Tadeusz Rózewicz e Zbigniew Herbet. Fiquei absolutamente encantado com a obra e, sobretudo, apaixonado pelo trabalho de Szymborska.

Então, em 1996, recebi com alegria a notícia de que a minha poeta polonesa preferida – não que eu conhecesse tantas poetas polonesas assim –  fora agraciada com o Prêmio Nobel de literatura.

A obra de Wislawa Szymborska não é muito extensa. Em cinco décadas de vida literária – sua primeira publicação é de 1952 –, escreveu apenas 12 pequenos livros. Sua grande produção, no entanto, foi para a revista literária Zycie Literackie, na qual atuou entre as décadas de 1950 e 1980, onde escreveu crônicas sobre literatura, jardinagem, culinária e cães. Estas crônicas foram mais tarde reunidas e publicadas em em três volumes.

Aqui no Brasil, no entanto, o trabalho de Wislawa Szymborska é pouquíssimo conhecido. Além da publicação curitibana, a poeta polonesa teve alguns de seus poemas traduzidos por Ana Cristina Cesar nos 1970 e publicados em jornais e revistas literárias. A revista Piauí, há uns anos, também trouxe algum de seus poemas em uma de suas edições. A revista Coyte, de Curitiba, também publicou algo de Szymborska em algum momento. Não muito mais que isso.

No ano passado, porém, a Companhia da Letras lançou “Wislawa Szymborska [Poemas]”, traduzido pela curitibana Regina Przybycien. A obra faz uma pequena amostra do melhor de Szymborska, em escritos que se iniciam em 1957 e vêm até 2002.

O livro é deslumbrante e faz juz ao legado de Wislawa Szymborska. Sua linguagem é informal, coloquial. Escreve poesia como se estivesse conversando com a gente em sua sala de visitas:

Quando pronuncio a palavra Futuro
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser.

A poética de Wislawa também reserva espaço para reflexões mais profundas. Não podemos esquecer o contexto em que a poeta viveu. Seu país, a Polônia, atravessou o século XX em constantes guerras e transformações políticas. Escreve:

Mulher, como você se chama? – Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? – Não sei.
Para que cavou uma toca na terra? – Não sei.
Desde quanto está aqui escondida? – Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? – Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? – Não sei.
De que lado você está? – Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. – Não sei.
Esses são teus filhos? – São.

Mas é em “Impressões do Teatro” que Szymborska me pega pela garganta. Raramente li algo tão poderoso sobre a arte de Dioniso. Depois de afirmar que o mais importante na tragédia é o sexto ato: o ressuscitar dos mortos das cenas de batalha, e discorrer sobre o fenômeno do teatro, encerra assim o poema:

Mas o mais sublime é o baixar da cortina
e o que ainda se avista pela fresta:
aqui numa mão se estende para pegar as flores,
acolá outra apanha a espada caída.
Por fim uma terceira mão, invisível,
cumpre o seu dever:
me aperta a garganta.

“Wislawa Szymborska [Poemas]” é um livro obrigatório. Além do prefácio, também assinado por Regina Przybycien, a seleção dos poemas – talvez porque se apresente em ordem cronológica – traça um panorama bem honesto sobre a produção desta que foi, seguramente, uma das grandes vozes da poesia do século XX.

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* Na verdade, eu li este livro no final do ano passado. E se tivesse escrito esta resenha antes, estaria me referindo a Wislawa Szymborska no presente. Sim, infelizmente, a trovadora polonesa morreu no último 1 de fevereiro, aos 91 anos.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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