Vera Felício e o conceito de Parresia, via Foucault

Hoje , os aprendizes da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco foram convidados a dar um mergulho pelo universo de Platão e Foucault. E o programa foi, no mínimo, instigante. Quem conduziu a experiência foi a professora de Filosofia Vera Felício (docente aposentada junto ao Departamento de Filosofia, na área de Estética, da Universidade de São Paulo). Conduzidos por suas palavras, pudemos entender melhor o conceito de Parresia, que o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) começou a trabalhar em seu livro “O governo de si e dos outros” (1982/83) e continuou com sua pesquisa sobre o tema durante o derradeiro curso que ministrou no Collège de France, em 1984.

Parresia é o termo em grego para designar a coragem de se dizer a verdade, expor tudo, de se falar com franqueza. Em seu trabalho, Foucault trata desta antiquíssima noção e seu uso político desde os primórdios da politeia (constituição) e da democracia na Grécia.

Falar a verdade é um ato perigoso. Que o diga Platão! Em “A vida de Díon”, escrito por Plutarco, Díon, cunhado e conselheiro do tirano Dionísio de Siracusa, impressionado pelos ensinamentos de Platão, decide apresentá-lo ao soberano. Quando Platão começa a dizer a verdade a Dionísio, o Velho, discursando sobre o seu mau governo, o tirano, em lugar de abrir um espaço para um debate, vende Platão como escravo (e o desfecho só foi este porque ninguém teve coragem de colocar em prática a sentença de morte decretada por Dionísio).

Foucault examina o ato corajoso de Platão e a atitude do tirano. A Parresia estabelece uma relação de risco daquele que fala com o que diz; é irrupção desordenada de discursos verdadeiros que abrem uma multiplicidade de impactos possíveis e imprevisíveis. “O tirano não tem virtude, nem racionalidade, segundo os conceitos da Grécia Antiga, desenvolvidos por Platão”, segredou hoje Vera Felício.

A professora também faz um paralelo entre as recentes manifestações em todo o País, que se diziam apartidárias, com o conceito de tirania e democracia desenvolvidos pelos gregos. “No começo desses atos, eu me assustei. Achei que estávamos caminhando para uma retomada da ditadura, que eu vivi na pele, nos anos 60/70. Mas, depois, acredito terem sido válidos. Só não aceito os Black Block, que saem depredando o patrimônio público. Daí é anarquia, não é democracia. Acho que seriam até mais válidas se fossem feitas passeatas em silêncio”, opinou Vera.

E como aplicar o conceito de Parresia, de dizer a verdade, doa a quem doer, no palco, um lugar onde, teoricamente, a mentira se faz verdade? “O teatro trabalha com a heterotopia (hetero = diferente/ topia = lugar). O teatro é um lugar diferente, onírico, onde outra realidade é criada. Por isso, ele comporta o conceito de Parresia”, explica (aliás, muito bem) nossa convidada.

Enfim, trata-se de uma provocação enriquecedora, direcionada especialmente aos aprendizes do módulo Vermelho deste semestre, cujo operador é justamente o conceito de Parresia, pelo ponto de vista de Foucault.

Na entrevista para a seção Videocelular, feita pelo pessoal do portal da Escola com a filósofa Vera Felício, mais sobre o assunto, que, afinal de contas, interessa a todos nós, já que aborda verdade, política e democracia. Clique aqui para assistir.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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