Vanusa e Os Satyros

Vanusa foi uma cantora bastante presente em minha infância. Fazia muito sucesso em minha casa. Me lembro que nos anos 1970 era moda a coleção de pôsteres, que vinham encartados nas revistas adolescentes da época. No nosso quarto – dormíamos seis num mesmo cômodo – as paredes eram revestidas com esses cartazes, estampando os ídolos das minhas irmãs. Entre Alain Delon, Gianni Morandi, Rita Pavone, Ted Boy Marino e Ronnie Von, havia um pôster enorme da Vanusa. Lembro bem: de minissaia vermelha e botas brancas, sorrindo muito. E linda!

Assim, ali na parede do nosso quarto, era como se aquele pessoal todo dividisse com a gente os nossos segredos. Sim, eu falava com eles muitas vezes. Me lembro de uma vez que encontrei o meu irmão Dimi rezando diante de um desses cartazes. Eu tinha oito anos e não entendia direito o que estava acontecendo. Ele me explicou:

— Essa aí é a Leila Diniz, era atriz. Morreu, coitada. Temos que rezar pra alma dela encontrar o céu.

Depois desse dia, rezei várias vezes pela alma de Leila Diniz, diante daquele pôster, para que ela pudesse encontrar o caminho do reino dos céus.

Mas era o pôster da Vanusa de minissaia vermelha e bota branca que mexia um pouco com a minha anima. Como eu gostava de ver aquela imagem! E como era linda e como sorria bonito e como cantava aquela moça da nossa parede!

O tempo passou, fui estudar teatro em Curitiba, fundei Os Satyros em São Paulo e estávamos trabalhando no Teatro Bela Vista, na rua Major Diogo, quando um dia um dos atores do grupo apareceu com uma agenda de telefones. O ano era 1991 e naquela época não havia celulares e nem internet. Então a única maneira de se ter o contato de uma pessoa era possuir o telefone direto dela. E, naquela agenda, tinha o telefone pessoal de todo mundo: do Roberto Marinho, do Silvio Santos, da Dercy Gonçalves, do Gugu Liberato, do Antonio Fagundes e da Vanusa!

O ator que apareceu com a agenda era o Néviton de Freitas, que havia sido dispensado do trabalho na Apetesp, a Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo. Tinha ficado puto e, ao recolher suas coisas, roubou a agenda como símbolo de protesto, de vingança.

Estávamos eu e o Fauze El Kadre no pequenino escritório do Satyros no Teatro Bela Vista quando o Néviton nos presenteou com aquele tesouro. Sem saber o que fazer com aqueles contatos todos, tive uma ideia:

— Vamos passar trote nesse pessoal!

Começamos pela letra A e fomos nos divertindo. Me lembro que nessa tarde falamos pessoalmente com o Benedito Ruy Barbosa, com a Dercy Gonçalves, com o Dias Gomes, com o Gugu Liberato, com o Jerry Adriani e… com a Vanusa!

Eu ligava disfarçando a voz, falava qualquer coisa e desligava o telefone depois, tipo:

— É do açougue? Não? É que passei aí e vi uma linguiça na janela.

E entre um telefonema e outro, ríamos desesperadamente. Até que chegou na letra V, e o primeiro nome era o da Vanusa.

Ela tinha composto nos anos 1970 uma canção que fez muito sucesso, chamada “Manhãs de Setembro”, um clássico de seu repertório. Então, quando atendeu ao telefonema, comecei dizendo que era o Carlos, que queria convidá-la para cantar “Manhãs de Setembro”, às cinco horas da manhã, na rua Major Diogo, para saudar a primavera, que aconteceria dias depois. Também lhe disse que não tínhamos dinheiro e que o trabalho deveria ser voluntário. Estávamos no dia primeiro de setembro. E não é que a Vanusa se animou? Foi achando tudo legal e concordando com tudo. Mas enquanto ela se animava, eu ia dificultando as coisas:

— Você desce a rua Major Diogo, às cinco da manhã, cantando para a primavera que surgirá aos primeiros raios do sol, acompanhada por um coro que cantará com você, em direção ao Anhangabaú, por várias horas.

Vanusa aprovou tudo e, no meio da ligação, eu saquei que tinha tido uma ideia genial. Sim, faríamos um evento para saudar a primavera que começaria com ela cantando “Manhãs de Setembro”, com um coro que desceria a rua Major Diogo, em direção ao Anhangabaú, e nós faríamos uma vigília pela arte. Combinei com ela que o Ivam Cabral iria lhe telefonar para acertar detalhes.

Desliguei o telefone e disse:

— Fauze, eu acabei de ter uma ideia genial!

Foi assim que surgiu a Satyrianas e aquela agenda nos abriu caminhos para que Antonio Fagundes, Benedito Ruy Barbosa, Lauro Cesar Muniz, Ademar Guerra, Debora Bloch, Diogo Vilela e tantos outros nomes incríveis do cenário nacional estivessem conosco e abrilhantassem aquela primeira edição do nosso festival mais amado. Na véspera, Vanusa ligou dizendo que não poderia comparecer, pois havia recebido um chamado profissional do nordeste.

Então eu nunca a conheci pessoalmente. Durante esses anos todos, vários amigos em comum tentaram nos aproximar, mas o encontro jamais aconteceu. Mandávamos recadinhos carinhosos um pro outro e nunca consegui dizer a ela o quanto aquele encontro, mesmo de maneira atabalhoada, mudaria a minha vida pra sempre. O festival Satyrianas entrou no calendário cultural do Estado, virou projeto de lei para figurar no calendário do município de São Paulo, recebeu os prêmios Shell, APCA, Arcanjo de Cultura e Aplauso Brasil de Teatro, e virou inspiração para o premiado longa-metragem “Satyrianas – 78 Horas em 78 Minutos”, de Daniel Gaggini, Fausto Noro e Otavio Pacheco.

Neste fim de semana, fiquei sabendo que Vanusa está com Alzheimer e internada numa UTI, em estado grave. E meu coração, aqui, se despedaçou…

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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