OPINIÃO | Pequeno Balanço Sobre a Terceira Abertura dos Experimentos

Como é bom trabalhar nesta escola! Que orgulho ser o capitão desta embarcação que, a todo instante, se revela uma irresistível aventura. Este semestre foi incrível. Desde a pandemia eu não acompanhava tão de perto os trabalhos dos nossos estudantes. A vida na burocracia – importantíssima, é bom destacar – muitas vezes nos rouba o tempo de viver e de compor poesias.

Mas, enfim, este semestre se iluminou. Voltei a circular mais pelos corredores, a falar mais com nossos estudantes, a tê-los mais perto e, por que não, a amá-los mais também. Termino exausto. Acumulei a coordenação pedagógica aos meus exercícios habituais na direção executiva. Mas fiz tudo com muito amor, muito mais do que de costume. Porque eu estive lá. Não me furtei de viver cada momento, cada encantamento. E é dessa presença que nasce também a vontade de partilhar, com mais precisão, o desenho deste semestre.

Na SP Escola de Teatro, chamamos de módulo o período equivalente a um semestre. Este, o segundo de 2025, começou em agosto e se encerra agora, em dezembro. Cada módulo é pleno em si mesmo. Não pressupõe acúmulo, não exige prévias travessias, não estabelece hierarquias de chegada. Por isso, ao invés de uma lógica numérica (1, 2, 3 e 4), adotamos as cores – amarelo, vermelho, verde e azul – como quem nomeia paisagens distintas dentro de uma mesma cartografia formativa.

Ao ingressarem na Escola, os estudantes se reúnem em núcleos de criação definidos logo no início das aulas. É nesses núcleos que, a partir de operadores conceituais, materiais de trabalho e da presença dos artistas-pedagogos, se estruturam os experimentos que atravessam o semestre. Três vezes, ao longo do percurso, essas salas de trabalho se abrem ao público interno. Esta é a terceira abertura: o momento em que os processos respiram fora de si, revelando o que a temporada de pesquisa foi capaz de mover.

Com esta nomenclatura cromática, neste semestre trabalhamos com os módulos Amarelo e Vermelho. No Amarelo, o eixo é a Narratividade – o gesto de contar, fabular, compor mundos por meio da palavra, da memória e da trama. Já o Vermelho se volta para o território da autonomia do estudante: ali, cada núcleo define a linguagem com que deseja trabalhar, instaurando um espaço de Conflitualidade.

Assim, enquanto o Amarelo pergunta “como narramos?”, o Vermelho indaga “Pelo que lutamos? Contra o quê nos chocamos? E o que nasce dessa colisão?”. É nesse território quente que o teatro se afirma como campo crítico, como laboratório ético e como espaço onde a própria vida se desnuda em suas contradições.

Neste semestre, além dos eixos Amarelo e Vermelho, trabalhamos como Operador o livro “A gente mira no amor e acerta na solidão”, de Ana Suy. Como materiais de escuta e provocação, somaram-se à obra “A vida que ninguém vê”, de Eliane Brum, as imagens densas da pintora portuguesa Paula Rego e o olhar luminoso do fotógrafo Luiz Braga. Para nos ajudar a organizar poeticamente o semestre, tivemos como Artista-Pedagogo o texto dramatúrgico “Depois do Expediente”, de Franz Xaver Kroetz.

 

Fonte: SP Escola de Teatro

Post criado 675

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo