Passei a vida inteira no teatro. Profissionalmente, quase quarenta anos. O teatro como casa, como linguagem, como modo de existir no mundo. Depois, a educação. Ou talvez ela sempre estivesse ali, disfarçada de ensaio, de sala escura, de conversa depois da apresentação. Os últimos vinte anos foram dedicados à descoberta de um território surpreendente: não apenas a sala de aula, mas o desenho de caminhos, a invenção de projetos educacionais vivos, porosos, inquietos. Criei escolas – sim, mais de uma – em territórios de saberes muito próprios, onde aprender nunca foi um gesto neutro. Criei – ou melhor, ajudei a criar – duas faculdades de teatro, ambas estruturadas do zero, quando tudo ainda nem sonho era.
A psicanálise chegou depois, há cerca de dez anos. E, há cinco, a clínica cotidiana: o consultório, os pacientes, a lida diária com o indizível. Hoje, retomei presencialmente esse trabalho. Voltar ao consultório tem algo de reencontro e de promessa. Gosto demais de vir pra cá. Tenho dito, sem dramatização: este espaço é a construção de um trajeto para a minha velhice. Tudo pensado, organizado, cuidado. Não como quem se despede da vida, mas como quem aprende a habitá-la de outro modo. A clínica, sim, é o lugar onde imagino atravessar os últimos tempos da minha vida.
Há um novo ciclo em curso. E ele não começou agora. Apenas agora se deixa ver com mais nitidez. Aos poucos, vou fechando algumas portas e abrindo outras. E, curiosamente, a vida vai ganhando cheiro de infância, de terra molhada, de saudade. Talvez porque acompanhar o processo clínico de alguém seja, antes de tudo, mergulhar em si mesmo. Escavar. Escutar. Aceitar zonas de sombra sem pressa de iluminá-las.
É isso que, há anos, me orienta. E é isso que, agora, se anuncia como travessia. Não um rompimento brusco, mas um deslocamento interno. Um caminhar em direção a mim mesmo, entendendo – com alguma serenidade recém-aprendida – que a vida acontece exatamente no tempo em que aceito caminhar.
