Eu gosto de retrospectivas. Todo ano faço a minha. É um gesto de pausa e escuta. Um momento em que consigo dimensionar o que passou, reconhecer atravessamentos, perdas e conquistas, e ganhar fôlego para prospectar aquilo que realmente importa, o que insiste, permanece e pode, de fato, alcançar o futuro.
2025 foi, especialmente, um ano difícil. Se tivesse de escolher uma palavra para me definir, talvez fosse trabalho. Mas vamos lá. Houve dias mágicos também. Comecei o ano em deslocamento. De férias, passei o réveillon na Cidade do México e vivi quinze dias percorrendo o país, tentando compreender, com o corpo mais do que com a razão, tamanha beleza, diversidade e intensidade. Um início de ano atravessado pelo espanto.
Mas este 2025 foi, de verdade, um ano de grandes presentes. Em fevereiro, chegou Guadalupe, uma mini golden diminuta e destemida. Em setembro, Bernardo, nosso ponsky majestoso e carinhoso. Dois filhotes que desmontaram a casa – móveis, rotinas, silêncios – e, ao mesmo tempo, a reconstruíram com uma abundância de afeto difícil de explicar. Amor em estado bruto.
Outro presente deste ano veio da escrita. Um texto meu, criado a quatro mãos com Rodolfo García Vázquez, especialmente para Ulrika Malmgren e Katta Pålsson, do grupo Darling Desperados, ganhou montagem – e uma montagem de sucesso, é justo dizer – na Suécia. “A Neve no Brasil – Anna, você pode ficar” atravessou o oceano e virou “Snön i Brasilien – Anna du kan väl stanna”. Encantou público e crítica em uma temporada no incrível Unga Klara, o Teatro Municipal de Estocolmo. Um luxo raro: ver a palavra migrar e permanecer viva em outra língua.
Exerci também uma função que muito me honrou. A curadoria dos cinemas de arte da rede CineSystem, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Um prazer imenso, sobretudo porque a indicação do meu nome partiu de uma amiga que amo, Beth Furtado, companheira desde os tempos da faculdade de teatro, nos anos 1980, em Curitiba. Conhecer de perto a engrenagem da empresa foi uma surpresa luminosa. Trabalhei diretamente com seu fundador e diretor, Marcos Barros, um homem arrojado, generoso, com ideias instigantes sobre exibição e distribuição audiovisual. Um encontro feliz entre pensamento e prática.
O ano também foi de pesquisas e estudos. Com o artigo “Direitos humanos e ressocialização: desafios e caminhos para a reintegração social”, concluí mais uma pós-graduação, fruto direto da minha paixão, antiga e insistente, pelos Direitos Humanos.
Também foi um tempo de honrarias. No Satyros, em janeiro, recebemos ainda mais prêmios. Desta vez, o “Estranho Prêmio ,Deus Ateu de Teatro & Artes”, que em sua 6ª edição nos contemplou na categoria “Pesquisa Continuada”. E muita coisa ainda estava por vir. Eu e Rodolfo, em junho, também fomos agraciados com a Medalha Dona Yvone Lara, concedida pela BFV Cultura. Em agosto, recebemos a Medalha Nelson Rodrigues, da ANCEC, que reconhece destaques artísticos nas áreas do cinema, da televisão e do teatro. Em novembro, Os Satyros também foram homenageados pelo Teatro Nacional de Cuba por sua trajetória e dedicação ao teatro, em celebração aos 65 anos da instituição. Um reconhecimento que atravessa fronteiras e histórias. Sim, nossa relação com Cuba é antiga e cheia de experiências incríveis.
Passei o ano intensamente com as meninas do “ColetivA Psicanálise nas Brechas”, um grupo de psicanalistas mulheres. Oito mulheres e eu, o único homem. Organizamos mensalmente, no Cine Bijou – Sala Patrícia Pillar, o ciclo “Cinema e Psicanálise nas Brechas”. Foi potente, afetivo, necessário. Um filme por mês, com rodas de conversa ao final, durante todos os meses do ano. Em novembro, realizamos no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc o seminário “Por uma Psicanálise Decolonial – tropeços e linhas de fuga”. Mas, talvez, o gesto mais potente do ano tenha sido o lançamento do manifesto “Por uma psicanálise decolonial”, um encontro que propôs repensar criticamente a psicanálise a partir da escuta de raça, território, gênero, história e saberes ancestrais, abrindo novas possibilidades de cuidado, ética e resistência. Um evento que transbordou salas, reuniu vozes fundamentais da psicanálise e da cultura brasileira e se espalhou para além do espaço físico, alcançando milhares de pessoas também on-line.
Em fevereiro, lançamos o livro “Vocabulários”, primeira publicação do selo Phedra, criado pela Adaap, a Associação dos Artistas Amigos da Praça. Sou idealizador e um dos organizadores dessa obra que busca realizar um mapeamento etnolinguístico das transformações do discurso contemporâneo. São centenas de verbetes que propõem uma comunicação acessível e não violenta, reunindo terminologias das comunidades LGBTQIAPN+, feminista e antirracista, numa construção coletiva que aposta na legitimação de linguagens afirmativas e empáticas.
Por meio do Selo Lucias, projeto editorial coordenado por Elen Londero, Marcio Aquiles e eu, a SP Escola de Teatro – instituição mantida pela Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo – tornou-se semifinalista do Prêmio Jabuti Acadêmico 2025, na categoria “Ciência e Cultura”, com o livro “Breves apontamentos sobre o teatro das_nas_pelas periferias brasileiras”, organizado pelo pesquisador Alexandre Mate, onde também assino um artigo. Reconhecimento de uma produção que nasce das bordas para reposicionar o centro. Um reconhecimento importante na segunda edição desse prêmio que dialoga com a tradição literária do Jabuti, ativo desde 1958.
E por falar em livros, a SP Escola de Teatro, através do Selo Lucias também lançou obras fundamentais: dois novos volumes da revista A[L]BERTO e o sexto volume de “Eternizar em Escrita Preta”, resultado do Prêmio Solano Trindade, reunindo três dramaturgias de autores negros.
Ainda na SP Escola de Teatro, f2025 oi um ano excepcional. Enviamos 35 estudantes para intercâmbios na Alemanha, Noruega e Portugal, e recebemos professores e estudantes da Alemanha, Noruega e Índia. Rodolfo García Vázquez passou seis meses como professor convidado da Academia de Artes Dramáticas Ernst Busch, em Berlim. Recebemos ainda estudantes do Panamá, da Grécia e da Noruega. Um ano de circulação, trocas e atravessamentos.
Também no Satyros, nosso espetáculo “A Casa de Bernarda Alba”, com 25 atores, permaneceu em cartaz no Espaço dos Satyros, em São Paulo, viajou por diversas cidades do Brasil e encerrou uma temporada de sucesso no Teatro Nacional de Cuba, em Havana, em novembro. Antes, em março, estreamos “Peça para Salvar o Mundo”, espetáculo inspirado nos algoritmos cibernéticos – uma tentativa de pensar o presente olhando para o abismo e para a possibilidade de reinvenção. A peça, que ficou em cartaz no Espaço dos Satyros, viajou por várias cidades brasileiras, fez sucesso e causou polêmica.
Também escrevi e publiquei artigos em contextos diversos, como a University of Gdańsk, na Polônia, no livro “Teatr – Literatura – Zarządzanie”. Nesta obra, Rodolfo assina um artigo sobre teatro decolonial e o trabalho de Os Satyros na Praça Roosevelt. Eu e Marcio Aquiles escrevemos sobre acessibilidade – não como sinônimo de inclusão, mas como mudança de paradigma – e sobre o sistema pedagógico da SP Escola de Teatro. Escrevi ainda prefácios e um posfácio para uma publicação importante da psicanálise: “Língua no Divã @ Língua no Palco”, de Sergio Zlotnic.
Na reta final do ano, em novembro, a 26ª edição das Satyrianas terminou confirmando o festival como um dos maiores eventos de artes cênicas do país. Em quatro dias, o público acompanhou 482 atrações de circo, música, dança, performance, cinema e teatro, reunindo 1.928 artistas de 21 estados brasileiros e convidados internacionais. Entre eles, o diretor alemão Robert Schuster, da Universidade Ernst Busch, e o performer português Tiago Porteiro, da Universidade do Minho. A praça foi ocupada por diferentes gerações, linguagens e corpos – dos espaços dos Satyros e Parlapatões ao Cine Bijou; da SP Escola de Teatro às lonas especialmente montadas para o festival. Trinta mil pessoas acompanharam o evento.
Foi um ano extraordinário. E não porque tenha sido fácil. Houve cansaço, impasses, noites longas e escolhas difíceis. Mas foi justamente nesse atrito que o aprendizado se aprofundou e o sentido se tornou mais nítido. Aprendi muito. Sobre trabalho, sobre escuta, sobre limites. E, sobretudo, sobre a força que nasce quando não se caminha só.
Foi, realmente, um ano espetacular. Porque foi, acima de tudo, um ano de amor. Nunca me senti tão amado e respeitado. Isildinha Baptista Nogueira esteve comigo em todos os passos, com presença, generosidade e firmeza. Na SP Escola de Teatro, coordenadores e conselhos – de administração e fiscal – me sustentaram, literalmente, no colo, nos momentos em que o peso parecia maior do que eu podia carregar.
2025 foi um ano vivido com intensidade, trabalho, afeto e sentido. Um tempo que ensinou, exigiu e, em troca, ofereceu alegria.
Ao futuro!
