RECOMEÇO

Aylam e eu, na pirâmide de Queops, hoje à tarde

Enquanto escrevo, aqui, no lobby do hotel, Aylam, nosso guia turístico muçulmano, se diverte vendo youtubes brasileiros mostrados pelo Rodolfo.

Aylam é jovem, tem 26 anos, é bem bonito, fala várias línguas e nunca saiu do Egito. Por diversas vezes, e em várias ocasiões, teve seus pedidos de visto negados para vários países. Brasil, inclusive. Explicou-me que é bastante complicado para um egípcio conseguir uma autorização para sair de seu país.

Aylam é casado, tem uma filha e tem estado, desde o dia 25 de janeiro, acampado na Praça Tahrir, no centro do Cairo, juntamente com milhões de compatriotas, em busca de dias melhores e da tão sonhada democracia.

O Egito, governado por quase 30 anos pelo ditador Hosni Mubarak – e que renunciou ao cargo em fevereiro, após grandes manifestações populares –, vive um momento especial. E triste também. Muito sangue tem rolado pelas ruas do Cairo durante este ano todo. Já são centenas de mortes. Mas o povo não desiste e se encontra toda sexta-feira na Praça Tahrir para exigir mudanças.

O Alto Conselho Militar nomeou, provisoriamente, Omar Suleiman, então vice-presidente, para exercer o comando do país que vive um processo eleitoral de extrema complexidade.

A grande Cairo possui, aproximadamente, 16 milhões de habitantes e é a terceira maior cidade do mundo. E talvez uma das mais apaixonantes também. Não só porque convive com problemas sociais graves, mas porque, também, se percebe que, aqui, a esperança é o mote diário.

O que impressiona nesta revolução, no entanto, é que seu motor é extremamente jovem. Os sangues derramados na Praça Tahrir, de um modo geral, é composto por cidadãos recém saídos da adolescência.

Então, Aylam me confidenciou ontem que está disposto, por Alá, a dar o seu sangue em troca da liberdade. Pensa em sua filha, recém nascida. E não coloca, neste discurso, a soberba de uma civilização que tem mais de 5 mil anos. E bem que poderia.

O Egito é berço – e território – da história da humanidade. Qualquer estudo sobre o nosso comportamento passa por aqui. Mas Aylam não acha isso pertinente. É como se quisesse uma nova chance para começar tudo novamente. Do zero.

– Para que a minha filha, no futuro, possa ter a sorte de de não ser barrada na porta de entrada da embaixada da Alemanha.

Agora o Aylam aqui, com o maior sorriso do mundo – os egípcios têm dentes muito bonitos –, de longe parece ser o bravo que tem lutado ferozmente contra um sistema opressor. Porque ele tem esperança.

E é com um pouco da esperança que brota dos olhos do Aylam e de todo o povo egípcio, que quero terminar este ano. Hoje, pacientemente, como se fosse um ritual sagrado, cristãos e muçulmanos, homens e mulheres, crianças e velhos oraram  juntos, numa mesma oração, na Praça Tahrir, sem discriminação ou barreira. E eu estava lá e orei junto. Por uma sociedade mais justa, por um novo recomeço.

Que todos nós possamos beber deste momento para construir um mundo melhor. Sem barreiras, sem discriminação. Com futuro. E que venha 2012!

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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