Quase todos os tempos

O tempo tem me atravessado de um jeito insistente. E eu ainda não sei exatamente o que fazer com isso. Não é uma tentativa de dominá-lo. Isso seria ingênuo. Mas de estabelecer com ele uma espécie de convivência possível. Quase um acordo silencioso. Porque o tempo, aprendi, não se deixa capturar. Ele atravessa.

Talvez por isso eu volte a ele todos os dias. Não para desfazer os nós que permanecem, insistentes, estruturais. Mas para aprender a habitá-los. A psicanálise me ensina a todo tempo que não somos feitos de linhas retas, mas de enredos interrompidos, repetições, lapsos, retornos. Somos feitos desses nós que, longe de serem falhas, são precisamente o que nos sustenta.

E, curiosamente, o teatro também.

Há algo de profundamente analítico no ato de subir ao palco. Não porque o teatro explique – ele não explica –, mas porque ele encena. Ele coloca em jogo aquilo que, muitas vezes, não conseguimos dizer. O inconsciente, afinal, não fala em conceitos. Ele fala em cenas.

Hoje eu estreio mais uma peça. E ainda me surpreende que, depois de quase quarenta anos, a sensação seja sempre a mesma: um território cheio de incertezas. Não há garantia alguma. Nenhuma segurança. Apenas esse estado bruto de não saber.

E talvez seja justamente isso que me mantém.

Porque, no fundo, tanto a análise quanto o teatro se sustentam nesse mesmo ponto delicado: o intervalo. Esse espaço entre o que se sabe e o que escapa. Entre o que se diz e o que se cala. Entre o que se mostra e o que insiste em permanecer oculto.

No elenco desta nova peça, dois jovens estudantes da escola dividem a cena conosco. E há algo de profundamente comovente nisso. Eles chegam como quem atravessa uma ponte que não construímos sozinhos. E que tampouco controlamos. Eles são a prova viva de que o tempo não nos pertence. Ele nos atravessa e segue.

Há, na juventude deles, uma espécie de futuro em estado bruto. Mas não um futuro como promessa organizada. Um futuro como potência, como aquilo que ainda não se sabe. E talvez seja isso que mais me interessa: esse lugar onde o saber vacila. Porque aprendo com eles o tempo todo.

Durante muito tempo, acreditamos que viver era entender. Nomear. Resolver. Como se a vida fosse um enigma a ser decifrado. Mas há algo que se desloca quando aceitamos que não sabemos. Que talvez nunca saibamos completamente.

Na análise, isso é fundamental. Não se trata de encontrar respostas definitivas, mas de sustentar perguntas vivas. No teatro, também. Uma cena não se resolve. Ela ressoa.

“Quase Todos”, a peça que estreia hoje, nasce exatamente desse território. Há um momento em que Lírio, minha personagem, diz que talvez certas coisas sejam grandes demais para serem nomeadas. Que talvez algumas palavras excedam aquilo que tentam conter. E fico pensando se não é disso que se trata, afinal. Daquilo que escapa.

Porque entre a memória e o tempo existe sempre um descompasso. A memória tenta organizar. O tempo desorganiza. A memória cria narrativas. O tempo as desfaz. E, ainda assim, seguimos tentando. Como se contar fosse uma forma de permanecer.

Entre o saber e o não saber, existe esse território fértil onde algo pode emergir. Não como certeza, mas como experiência.

Entre aceitar e negar, vivemos os nossos conflitos mais íntimos. A psicanálise chama isso de ambivalência. O teatro chama de cena.

E entre amar e odiar – talvez o intervalo mais humano de todos – existe essa oscilação constante que nos constitui. Não somos uma coisa só. Nunca fomos.

Talvez seja isso que eu venho tentando dizer, sem conseguir nomear. Que viver é sustentar esses entre-lugares. Que o tempo não se resolve, se atravessa. Que a memória não guarda, reinventa. Que o saber não encerra, abre. E que o teatro, assim como a análise, não nos dá respostas. Mas nos oferece, com rara generosidade, a possibilidade de existir dentro das perguntas.

E talvez seja justamente aí que algo de nós insiste em permanecer. Não como certeza. Nem como verdade. Mas como presença.

Uma presença frágil, instável, atravessada. E, ainda assim, viva.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2037

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo