Quando o corpo vira tragédia – Medea outra vez

Volto a falar de Medea de Sêneca porque a peça não terminou quando as luzes se apagaram. Ela continua reverberando por aqui. E, na reverberação, percebi duas ausências na minha leitura anterior.

Já havia falado de Rosana Stavis, de Mariana Muniz e da participação especial de Walderez de Barros – três presenças centrais, três forças que sustentam o eixo trágico da montagem. Rosana com sua monumentalidade quase ritual; Mariana com sua inteligência cênica afiada e visceral; Walderez com a gravidade serena de quem carrega décadas de teatro no corpo. Elas já estavam devidamente inscritas.

Mas fui injusto com o restante do elenco.

E é preciso dizer com todas as letras: o que acontece em cena é um fenômeno coletivo.

Jorge Emil, Claudio Fontana, Plínio Soares, Letícia Teixeira e Gabriel Sobreiro compõem um conjunto raríssimo. Não há elo frágil. Não há presença protocolar. Há entrega absoluta.

Há uma potência febril que atravessa a cena de ponta a ponta. As palavras de Sêneca não são ditas, são lançadas como matéria em brasa, cortando o ar.

Os gestos não acompanham o texto, rasgam o espaço e instauram conflito vivo. E os corpos, tensionados ao limite, parecem atravessados por uma corrente elétrica contínua, vibrando numa intensidade quase perigosa, como se a qualquer segundo a tragédia pudesse escapar do palco e nos atingir em cheio.

Há ali uma potência que se manifesta em várias camadas ao mesmo tempo: vocal, porque as palavras de Sêneca são arremessadas como matéria quente, quase incandescente; corporal, porque os gestos não ilustram o texto, mas instauram conflito real no espaço; e energética, porque os corpos parecem atravessados por uma corrente contínua, sustentando a tensão da cena como se ela pudesse explodir a qualquer instante.

O que impressiona é o risco visível. A musculatura da tragédia está exposta. Os atores não administram a cena. Eles as atravessam. É teatro no limite. E o limite é o que dá grandeza à experiência.

Raramente uma produção reúne um elenco tão vigoroso. Raramente se vê essa homogeneidade de intensidade. É um organismo vivo, pulsando em uníssono. Cada um sustenta o outro. A engrenagem é precisa e feroz.

E então há a música.

O trabalho de Carlos Zimbher é de uma sofisticação notável. Ele não acompanha a cena – ele a infiltra. Em determinado momento, quase imperceptível, surge ao fundo, muito ao fundo, uma colagem delicadíssima de vocais que evocam Meredith Monk — ou talvez Diamanda Galás? Uma presença espectral.

O som não invade. Ele respira. Essa escolha é decisiva porque a música tensiona o silêncio, cria um campo vibratório onde a dor se expande sem precisar gritar. Se Sêneca escreve uma Medea mais discursiva, mais interiorizada, a trilha sonora parece operar nesse território do pensamento febril, do ressentimento que ecoa para dentro.

Corpos em combustão. Vozes subterrâneas.

Saí do teatro com a sensação de ter assistido a algo raro: vigor físico e refinamento estético convivendo na mesma arquitetura. Carne e espectro. Força e delicadeza.

Num tempo que prefere o morno, isso é radical.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2023

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