A semana passou como um ciclone, literalmente. Fez barulho, iluminou janelas e iluminou portas alheias, também. Ainda seguiu deixando atrás de si uma vibração difícil de processar. Porque, mais uma vez, o mundo falou alto. Nem sempre com palavras, é bom sublinhar.
Nos Estados Unidos, em Minneapolis, a história voltou a bater à porta com punhos cerrados. A cidade que se tornou símbolo de uma ferida aberta reaparece como aviso. Não há trauma que se resolva sozinho, nem democracia que sobreviva sem cuidado cotidiano. As ruas lembram que a violência do Estado não é um acidente. É uma escolha reiterada quando o pacto social se rompe.
Do outro lado do Atlântico, Portugal enfrentou um ciclone que veio sem pedir licença. Ventos violentos, chuvas desmedidas, árvores arrancadas, casas alagadas, cidades em suspensão. Não é apenas um fenômeno climático. É o clima do tempo em que vivemos. O planeta, exausto, responde. A natureza, que sempre nos falou em ciclos, agora grita. O extraordinário vai se tornando rotina, e o que antes chamávamos de “tragédia” começa perigosamente a ganhar ar de normalidade.
Enquanto isso, líderes se reuniam em salões aquecidos, discursos calibrados, promessas de cooperação global. O World Economic Forum encerrou mais uma edição com a coreografia conhecida. Diagnósticos precisos, soluções genéricas, a sensação persistente de que o mundo real caminha em outro ritmo. Mais rápido, mais áspero, menos elegante. Do lado de fora, a vida não espera consensos.
A Europa se moveu entre gestos simbólicos e tensões reais. Apelos por tréguas que raramente se cumprem, acordos diplomáticos que tentam conciliar economia e direitos humanos, boicotes esportivos que escancaram como até o entretenimento virou campo de batalha política. O futebol, as Olimpíadas, as ruas comerciais em declínio. Tudo parece dizer a mesma coisa. O cotidiano virou termômetro da crise.
Aqui, no Brasil, o noticiário nos puxou para outro tipo de inquietação. Investigações, redes digitais, influenciadores, dinheiro e política misturados como se fossem a mesma substância. A democracia, por aqui, também anda cansada, cercada por algoritmos, ruídos, narrativas fabricadas. A verdade disputa espaço com a performance. E quase sempre perde nos trending topics.
Diante disso tudo, o que nos resta? Talvez o gesto pequeno. O corpo presente. A recusa em normalizar o inaceitável.
Por isso, no domingo, estarei na Avenida Paulista. Vou por um cachorro, o Orelha, mas vou por algo maior do que ele. Vou porque defender uma vida vulnerável, ainda que não humana, é lembrar que a brutalidade não pode ser método. Vou porque, entre Mineápolis e Davos, entre milícias digitais e fóruns globais, ainda acredito que estar junto, ocupar a rua, dizer “não” com o próprio corpo, é uma forma de manter o mundo respirando.
Talvez seja pouco. Mas é o que temos. E, às vezes, é exatamente assim que a história começa a mudar. Quando alguém decide não passar reto.
