Há um certo pudor em falar de um trabalho enquanto ele ainda está nascendo. Como se nomear demais pudesse quebrar o feitiço. Tenho falado pouco de Quase Todos. Talvez porque ele ainda respire baixo, talvez porque algumas criações peçam silêncio para existir. Estamos ensaiando desde maio do ano passado, mas, na verdade, o tempo desse espetáculo é outro. Um tempo que não se mede em calendário, e sim em escuta, espera e risco.
Quase Todos fala de uma família. E toda vez que alguém diz isso, parece pouco. Quatro irmãos, pai, mãe. Uma cidade pequena no interior do Brasil profundo. Depois, São Paulo. A separação. Os anos que passam sem aviso, sem cerimônia, sem reencontro. Mas família nunca é só um tema. É uma matéria viva, espessa, que insiste em nos atravessar mesmo quando achamos que já passamos por ela. O tempo, nesse lugar, não é gentil. Ele é implacável. E a família também.
O texto nasceu na casinha no meio do mato em Parelheiros, no meio do mato. Nasceu de silêncios. Daquilo que não se diz porque não se consegue ou porque dói demais dizer. Talvez por isso seja uma peça triste. Bem triste. Não porque queira arrancar lágrimas, mas porque não desvia o olhar. O tempo ali não poupa ninguém. Ele cobra. Ele leva. Ele transforma o que fomos em algo que já não reconhecemos tão facilmente.
Somos dez atores em cena. Um elenco delicioso, desses que criam um campo de afeto raro, quase um abrigo. E, ainda assim, criar continua sendo um gesto profundamente solitário. A criação não oferece respostas. Ela acumula dúvidas. E é um rito estranho. Estar cercado de gente e, ao mesmo tempo, completamente só diante do que ainda não se sabe fazer. Talvez seja isso que a torne tão exaustiva. E tão necessária.
Voltar ao palco depois de quatro anos foi um movimento que eu mesmo não sabia se conseguiria fazer. Houve momentos em que pensei que não voltaria mais. O corpo cansa, a cabeça pesa, o mundo anda duro demais. Fazer teatro dá um trabalho danado. Exige uma entrega que nem sempre parece possível. Mas, paradoxalmente, é ali que mora um prazer que não cabe em palavra alguma. Um prazer que vem justamente do risco, do vazio, daquilo que ainda não tem forma.
Estar em cena novamente é, para mim, uma maneira de agradecer. À equipe, aos atores, às pessoas que se doam com uma generosidade que acolhe. Que empurram a gente para a arena quando a vontade é se esconder. Que fazem a gente se sentir vivo num tempo em que a morte – simbólica ou não – parece rondar tudo. Porque quando a morte chega perto demais, ela deixa de ser metáfora. Ela impõe sua presença, destrói mundos, exige legitimidade.
Talvez Quase Todos seja isso. Uma tentativa de olhar para o que o tempo faz com as famílias, com os corpos, com os afetos. Uma peça sobre aquilo que sobra. Ou sobre aquilo que falta. Estamos todos ali, com nossas histórias. Ou quase todos. E talvez seja justamente nesse “quase” que o teatro, mais uma vez, encontre sentido.
