O dia em que o sonho virou faculdade

O tempo não pede licença. Ele chega, se senta à mesa e decide. Às vezes demora, às vezes parece esquecido, mas quando resolve agir, age com uma elegância quase insolente. É assim que me sinto agora, olhando para a SP Escola de Teatro e percebendo, com um certo espanto sereno, que ela se tornou faculdade. Faculdade das Artes do Palco. A primeira do país. Dizer isso em voz alta ainda provoca um pequeno desajuste interno, como se o corpo precisasse de alguns segundos para acompanhar a notícia.

 

Nada disso veio pronto. Nada disso foi simples. Há projetos que nascem adultos. Este não. Este nasceu criança, atravessou uma adolescência cheia de dúvidas, enfrentou incompreensões, resistências, tropeços, e agora, iniciando 2026, assume a forma de ensino superior. Bonito isso. Ver um projeto crescer sem perder a memória do chão de onde saiu. Bonito e raro.

 

Lá em 2010, éramos escola livre. Não por rebeldia, mas por falta de encaixe. O Ministério da Educação, naquele momento, simplesmente não tinha linguagem para compreender o que propúnhamos. Nosso modo de pensar formação, processo, autoria, autonomia, parecia deslocado demais. Em 2017, viramos curso técnico. Já era um avanço. Agora, enfim, a autorização para atuar como curso superior. Não como concessão, mas como reconhecimento de uma trajetória que insistiu em existir.

 

Penso muito nos estudantes. Nos caminhos que os trouxeram até aqui. Nos que chegaram cheios de certezas e nos que chegaram carregando apenas perguntas. A faculdade nasce também para eles. E por eles. Para legitimar sonhos que, durante muito tempo, precisaram caminhar sem mapa.

 

E penso, inevitavelmente, no início de tudo. No Jardim Pantanal, extremo da zona leste de São Paulo. Um trabalho pequeno, voluntário, feito aos sábados, com alegria e seriedade. Um trabalho que não pretendia fundar nada grandioso, apenas escutar, estar junto, criar espaço. Ali conhecemos o Breguesso – cabeleireiro, líder comunitário, leitor voraz de filosofia, antropologia, sociologia. Um homem capaz de reunir adolescentes em torno de livros e ideias. Foi ele quem nos apresentou aquela cena. Foi com ele que aprendemos, mais uma vez, que educação verdadeira nasce do encontro.

 

Durante anos estivemos ali. Chegamos a abrir um espaço dos Satyros no bairro. Já tínhamos dois na Praça Roosevelt e aquele se tornou o terceiro. Foi assim, quase por acaso, que José Serra – então prefeito da cidade de São Paulo – entrou em nossa história. Convidado por Gilberto Dimenstein, depois de assistir a um espetáculo, quis saber quem eram aqueles jovens que trabalhavam conosco. Contamos: vinham do Jardim Pantanal, atuavam como bilheteiros, técnicos, aderecistas, operadores de luz e som. Trabalhavam enquanto aprendiam. Ele ouviu em silêncio, pensou por um instante e lançou a pergunta que mudaria tudo:

“E se montássemos uma escola para formar esses profissionais?”

 

Às vezes, a história começa assim: com uma pergunta dita no momento exato.

 

Hoje, olhando para trás, vejo que a SP Escola de Teatro não é apenas uma instituição. É um organismo vivo, feito de gente, de risco, de afeto, de insistência. Se tornar faculdade não é um ponto final. É mais uma dobra do tempo. Uma confirmação de que sonhar, quando é coletivo e persistente, também pode virar política pública, pedagogia, futuro.

 

O tempo é rei, sim. Mas ele só governa bem quando encontra quem tenha coragem de caminhar com ele. Viva o teatro!

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2020

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