O BAILE DOS FRACASSADOS CHAMADO “INFERNO NA PAISAGEM BELGA”, VOLTA EM CARTAZ NO SATYROS

por Leandro Nunes

Chico, o labrador caramelo, circulava pelo palco dos Satyros I. Seu dono, Ivam Cabral, se dividia entre mantê-lo por perto e ler algumas poesias, vistas do tablet. “Esse menino está comigo há quase um mês, ele estava perdido e doente. Olha ele, agora”, e o cão sorria abanando o rabo. Os textos lidos pelo ator são de autoria dos amantes Paul Verlaine (1844-1896) e Arthur Rimbaud (1854-1891). Os poetas franceses viveram uma intensa paixão na Paris revolucionária daquele século e acabaram por inspirar “Inferno na Paisagem Belga”, a mais recente montagem da Cia. No Espaço Satyros Um, Robson Catalunha, Henrique Mello e Tiago Capela Zanota completam o elenco dirigido por Rodolfo García Vázquez e permanecem em cartaz até 16 de março. “O desespero do teatro é que raramente ele é arte e vida, pra quem faz e pra quem assiste. Então, bem vindos ao nosso fracasso”, anunciou Ivam.

De início, logo se esclarece: ninguém encarna nenhum dos poetas. A escolha passa por performar as fases da paixão – admiração, desejo, amor, alegria, ódio e tristeza – elaboradas pelo filósofo René Descartes e, de longe, ainda que alguns eventos do relacionamento. Ao fim de cada cena, a impressão é que o espetáculo está sendo construído em tempo real, o que se confirma no momento em que os atores suspendem a encenação para compartilhar o processo criativo.

E a paixão desenfreada de Rimbaud e Verlaine mergulha em uma experiência sensorial de texto, luz e som. Trechos de poesias correm pelas paredes, iluminados ao ritmo de canções francesas. Os últimos dois “degraus”, ódio e tristeza, alcançam o topo do vértice quando Verlaine dispara dois tiros em Rimbaud, durante uma discussão. Projeções sobre a plateia dividem espaço com filmagens do palco em tempo real. E então, público e palco são conectados: fala-se sobre as desventuras da própria vida, ao sabor de qualquer um.

E assim, o trecho de “Baile dos Enforcados”, de Rimbaud, sorri, afinal, para o grupo: “Dançam, dançam os paladinos / Os magros paladinos do diabo / Os esqueletos dos Saladinos”. Recitado por Ivam no começo do espetáculo, a estética do fracasso encaixa bem, como o capacete ao cavaleiro.

Fonte: Ra-to-le-tra-do, fevereiro de 2013

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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