Nunca foi ruptura, sempre foi caminho

Leio agora o que Gabi Loran disse sobre a novela “As Três Graças” ter rompido a barreira de gênero. E, enquanto leio, não há em mim qualquer impulso de disputa. Há, antes, reconhecimento. Um certo alívio. Como se algo que, durante tanto tempo, precisou ser dito em voz baixa, agora pudesse, enfim, circular em voz alta.

Porque romper barreiras nunca é um gesto isolado. É sempre uma travessia coletiva. Ainda que nem todos estejam visíveis no momento da travessia.

Nos Satyros, essa fronteira começou a se dissolver muito antes de virar manchete. E talvez, justamente por isso, tenha acontecido de forma tão silenciosa que, às vezes, nem parecia um rompimento. Era apenas o modo como acreditávamos que o teatro deveria existir.

Lembro de Phedra de Córdoba. Entre 2001 e 2016, ela esteve conosco não como exceção, não como símbolo, não como corpo a ser explicado. Esteve como atriz. E isso muda tudo. Porque quando alguém entra em cena apenas como atriz, o mundo se reorganiza, sem precisar de anúncio.

Phedra interpretava mulheres. Não “mulheres trans”. Mulheres. Com desejo, contradição, força, fragilidade. E o público, pouco a pouco, deixava de perguntar “o que ela é” para começar a escutar “quem ela é”.

Esse deslocamento, que parece pequeno, é abissal.

Outras atrizes trans passaram por nós. Muitas outras. E nunca houve o gesto fácil – e perverso – de transformá-las em vitrine. Nunca quisemos dizer: “olhem o que temos aqui”. Porque isso não é inclusão. Isso é exposição. E exposição, quando não vem acompanhada de escuta, é apenas uma forma sofisticada de exclusão.

Penso agora em Marcia Daylin, em cena, em “Quase Todos”, no Sesc 24 de Maio. Ela interpreta uma mulher cis. E eu, em um desses pequenos deslocamentos que o teatro permite, interpreto seu filho. Há algo de profundamente simples nisso. E, ao mesmo tempo, radical.

Porque o teatro, quando é verdade, não pergunta ao ator de onde ele vem. Pergunta apenas se ele sustenta o que diz. Mas talvez seja preciso acrescentar: hoje, sabemos que há histórias que não podem mais ser contadas sem a presença de quem as vive.

Talvez seja isso que sempre buscamos, mesmo sem nomear com precisão: um espaço onde a identidade não seja um limite, mas um ponto de partida. Onde o corpo não precise justificar sua existência antes de poder criar.

Sim, o que Gabi Loran realiza na televisão aberta é imenso. O que Renata Carvalho, Luh Maza e Leona Jhovs – e tantas outras – fazem, no palco e fora dele, é necessário. É histórico. Porque amplia o campo do visível. E o visível, sabemos, ainda organiza o mundo.

E talvez seja importante dizer também outra coisa. O movimento trans no teatro vem afirmando, com força e razão, a necessidade de que corpos trans sejam interpretados por pessoas trans. Não se trata de uma regra formal. Trata-se de uma reparação histórica. De uma tentativa de interromper um longo processo de apagamento, de substituição, de silenciamento.

Renata Carvalho, Luh Maza e Leona Jhovs – que aparecem aqui como nomes entre muitos outros possíveis – estão entre aquelas que sustentam essa luta com coragem, rigor e pensamento. E é justo que seja assim. Porque há histórias que, por muito tempo, foram contadas sem aqueles que as viveram.

Fazer coro a isso não contradiz o que vivemos. Ao contrário. Nos convoca a seguir escutando. A entender que cada tempo traz suas urgências. E que a ética do teatro não está pronta, ela se refaz constantemente.

Mas há também aquilo que acontece antes do visível. Aquilo que se constrói nos bastidores da história, nos pequenos gestos, nas escolhas éticas que não pedem aplauso.

No teatro, fazemos isso há muito tempo, já. Não como antecipação. Não como pioneirismo a ser reivindicado. Mas como consequência de uma crença: a de que o palco não deve reproduzir o mundo como ele é, mas ensaiar o mundo como ele pode ser.

E talvez seja por isso que, quando essas barreiras finalmente caem à vista de todos, não sentimos que começamos algo. Sentimos apenas que, de algum modo, já estávamos ali. Antes do nome. Antes da notícia. No caminho.

* Na foto, de Andre Stefano, Marcia Daylin no centro

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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