Ah, o tempo. Esse carrasco paciente que não grita, não corre, não se anuncia. Apenas atravessa. Passa pelas coisas, pelas pessoas, pelos projetos, pelas promessas. O tempo não negocia: opera. E, no entanto, é dele que brotam a vida, o amor, os vínculos, essas histórias que permanecem mesmo quando tudo parece ter se dissipado. O tempo corrói e, ao mesmo tempo, funda. Desgasta, mas inaugura. É nele que começamos. É contra ele que, inutilmente, tentamos argumentar.
Hoje, minha mãe faria 100 anos. Cem. Nasceu em 27 de janeiro de 1926 e morreu em 2010, deixando uma vida que jamais foi simples. Mas foi inteira. Eunice. Nice. Eunicinha. Três nomes para uma mesma mulher que soube ser muitas. Foi o esteio da nossa família, a sustentação silenciosa da casa quando tudo ameaçava ceder.
Costureira. Palavra pequena para uma função imensa. Com linhas e agulhas, costurou roupas. E também dias possíveis. Assumiu o lugar de provedora e cuidadora com a naturalidade de quem não faz alarde da própria força. Criou seis filhos. Seis existências inteiras, cada uma com seu peso, sua fome, sua promessa.
Meu pai era pedreiro. Homem bom, mas ingênuo demais para o tamanho de uma família numerosa. Quando o trabalho faltava na cidade, precisava ir embora, ganhar o sustento longe, por esse Brazilsão afora. Voltava de quinze em quinze dias. Às vezes menos, às vezes mais. Nesse intervalo, era minha mãe quem segurava as barras da casa. Segurava com dignidade, com economia de palavras e um cansaço que nunca se converteu em amargura.
Hoje, minha mãe é também uma praça, em Curitiba. Uma praça. Há algo de justo nisso: transformar uma mulher em espaço de encontro, em lugar de passagem, descanso, infância em movimento. Ela foi assim em vida. Popular, generosa, disponível. Ajudou muita gente. Muita. Sem pedir nada em troca, porque havia nela uma forma rara de abundância. A de quem sabe repartir mesmo quando tem pouco.
Os últimos anos foram tranquilos. Talvez o tempo, esse mesmo carrasco, tenha suspendido a lâmina no fim. Viveu bem, cercada pelo cuidado dos filhos que não se cansavam de mimá-la. Viajou, riu, desejou – e teve. Ao menos nos últimos dez, talvez quinze anos. Um luxo tardio, mas exato. Como se a vida, finalmente, tivesse dito: agora.
E foi no tempo que pensei hoje, o dia inteiro. Não como conceito, mas como presença. Algo que não se vê, mas se inscreve. No corpo, nas ausências, nas marcas que surgem sem aviso. O tempo leva pessoas, casas, convicções. E, ainda assim, é nele que certos afetos se depositam e permanecem quando tudo o mais se desfaz. O tempo fere, mas decanta. Gasta, mas esclarece. Toma e devolve sob a forma discreta da memória.
Cem anos. Minha mãe, de algum modo, chegou lá. Não como data, mas como rastro. Está nos gestos que repito sem perceber, no modo como cuido, na forma quase involuntária com que aprendi a resistir. O tempo levou Eunice, Nice, Eunicinha, levou o corpo, o nome, a voz. Mas deixou em mim algo que não se deixa organizar em homenagem: a marca de uma vida atravessada.
Talvez seja isso que reste. Não vencer o tempo, mas seguir em negociação permanente com ele, aceitando que algumas perdas não pedem reparo e que certas presenças só existem enquanto ausência. O tempo não se derrota. No máximo, se suporta. E, às vezes, se escreve.
