José Serra faz aniversário daqui uns dias, 19 de março. Ando com saudades do meu amigo. Serra foi uma presença muito importante na minha vida e, também, na história da SP Escola Superior de Teatro. Foi ele quem, anos atrás, nos provocou a pensar na criação de um espaço de formação que pudesse realmente fazer diferença na história do teatro brasileiro. A ideia parecia ousada naquele momento. Hoje ela existe. E segue viva.
Pouca gente lembra, mas antes de se tornar economista, exilado político, ministro ou governador, José Serra também passou pelo teatro. Nos anos 1960, ainda estudante da USP, chegou a atuar em montagens ligadas ao circuito universitário dirigido por José Celso Martinez Corrêa. A experiência foi breve, mas talvez tenha deixado uma marca duradoura. Serra nunca deixou de ser um espectador atento da cena teatral brasileira.
Talvez seja por isso que me pego revisitando certos gestos de sua trajetória pública. Porque nunca achei simples falar sobre José Serra. Talvez porque o simples, quase sempre, seja uma forma elegante de não se posicionar. Não me interessa o elogio fácil, tampouco a condenação automática. O que me move é outra coisa: observar o que foi tocado, instituído, assentado no concreto do Estado, num tempo em que muitas das palavras que hoje circulam com naturalidade ainda eram ditas em voz baixa, quando eram ditas.
Ao revisitar os anos em que Serra esteve à frente da Prefeitura de São Paulo e, depois, do Governo do Estado, percebo uma marca persistente. Não era o gesto da ruptura nem o entusiasmo da retórica. Havia, antes, uma aposta silenciosa: fazer o Estado existir onde ele historicamente se ausentava.
No campo LGBTQIAPN+, isso ganhou corpo. Ainda na prefeitura, em 2005, a criação do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual (CADS), um dos primeiros espaços institucionais do tipo no Brasil, produziu algo raro para aquele tempo: escuta formal, participação reconhecida, existência administrativa. Não era pouco. Ao mesmo tempo, normas administrativas passaram a permitir que parceiros do mesmo sexo fossem incluídos em benefícios funcionais, especialmente na assistência à saúde. Sem alarde, o Estado reconhecia que aquelas relações também produziam laços, responsabilidades, direitos. O gesto foi discreto, gradual, e acabaria consolidado em gestões posteriores. O poder não gritava. Registrava.
No governo estadual, a pauta avançou um passo decisivo. A criação da Coordenação de Políticas para a Diversidade Sexual e, em 2010, do Conselho Estadual dos Direitos da População LGBT inscreveu essas existências na gramática oficial do Estado. E quando o nome social passou a ser respeitado nos órgãos públicos, algo essencial foi afirmado: ninguém deveria ser violentado pelo próprio nome. O mínimo, às vezes, é tudo.
Nada disso aconteceu em clima de consenso. Eram anos em que falar de diversidade sexual ainda produzia resistências abertas, quando o simples reconhecimento já soava como afronta. Talvez por isso a escolha tenha sido menos retórica e mais administrativa. Criar estruturas. Assinar decretos. Deixar rastros. O poder, ali, ousou tocar sem anunciar.
Quando volto o olhar para a população negra, a paisagem se complexifica. Não houve ruptura com as desigualdades raciais que atravessam nossa história, mas tampouco houve apagamento. Projetos e instâncias de diálogo já existentes foram mantidos, reorganizados, sustentados institucionalmente. O Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra seguiu como espaço de escuta e articulação, ainda que circunscrito a limites simbólicos. Houve reconhecimento, presença institucional, continuidade. Não houve salto estrutural, mas houve permanência.
Já no campo mais amplo das populações em situação de vulnerabilidade, a lógica seguiu outra direção. Universalista. Fortalecer a rede pública de saúde, sustentar a capilaridade da assistência social, garantir políticas que não nomeavam identidades específicas, mas que, na prática, alcançavam mulheres, pessoas negras, moradores das periferias, corpos historicamente precarizados. Um Estado que operava pelo geral, não pelo recorte. A gestão Serra tinha forte orientação tecnocrática e universalista e focava políticas públicas amplas (saúde, assistência, educação).
O que emerge desse conjunto não é um projeto de transformação radical. É, antes, uma concepção de Estado que trabalha pela consolidação institucional: fazer caber, dentro da máquina pública, aquilo que antes era invisível, informal ou negado. Um Estado que não convoca multidões, mas cria conselhos. Que não faz manifesto, mas decreto. Que não grita, assina.
Talvez por isso o legado desse período não se meça pelo entusiasmo das ruas, mas pela permanência das estruturas. Conselhos que seguem existindo. Coordenações que continuam operando. Normas que, ainda hoje, produzem efeitos, muitas vezes sem que se saiba de onde vieram.
Entre esses gestos de institucionalização, vale lembrar o Palacete dos Artistas, na Avenida São João, no centro de São Paulo. O edifício histórico, construído no início do século XX e por décadas degradado, foi incorporado à lógica de revitalização do centro que ganhou força na gestão Serra e acabou restaurado e entregue, já no governo de Gilberto Kassab, como equipamento de moradia e cuidado para artistas idosos ou em situação de vulnerabilidade. Mais do que uma obra isolada, o Palacete tornou-se símbolo de uma política pública que buscou fazer o Estado chegar a territórios e biografias historicamente esquecidos, articulando patrimônio urbano, assistência social e reconhecimento da vida cultural da cidade.
Eu estava lá. Vi esses movimentos acontecerem sem alarde, muitas vezes longe dos holofotes, em salas de reunião, em papéis assinados, em decisões que pareciam pequenas demais para virar manchete. Aprendi, naquele tempo, que o Estado também se transforma assim: por acúmulo, por insistência, por gestos que não prometem o futuro, mas evitam o apagamento.
Talvez seja isso que reste. Não grandes epifanias, nem narrativas heroicas. Mas a sensação de que, em certos momentos, algo foi tocado. E, ao ser tocado, deixou de ser apenas desejo para ganhar corpo, nome e lugar no mundo.
