MINHA OPINIÃO – “JAZZ BAND NA SALA DA GENTE”, UMA ODE AO ARTISTA

“Jazz Band na Sala da Gente”, romance de estreia de Alexandre Staut, lançado em 2010 pela Toada Edições, é um livro que você deveria ler.

O enredo se passa em uma pequena cidade do interior paulista, Espírito Santo do Pinhal, nos anos 1940, precisamente no terrível 1945.

A história gira em torno de uma família, pai judeu alemão e mãe italiana, donos da única funerária da cidade. O pai, Eduardinho Staut, flautista da Pinhal Jazz Band, vive às turras com sua mulher, a conservadora Ondina, que tem repulsa pelo trabalho artístico do marido. Como pano de fundo, a época de ouro da música, suas cantoras, o rádio e a perseguição aos judeus no fim da Segunda Guerra Mundial.

A narrativa da obra é construída através do olhar do filho do casal, também chamado Eduardinho, com apenas seis anos, e que não entende o ódio da mãe pela música do pai; nem por que sua casa é procurada pelo pessoal da cidade aos prantos e sempre em desespero.

Bonito como o autor trabalha as diferenças de personalidades entre o casal Staut. De um lado, a delicadeza e refinamento de Eduardinho; de outro, o temperamento da esposa, extremamente religiosa e questionadora da arte do marido que, na sua opinião, é para os desocupados.

Ponto alto do livro, os concertos secretos que Eduardinho faz para os filhos quando Ondina não está em casa. Enquanto a mulher se preocupa o tempo todo em procurar ajuda para mudar o nome da família – afinal, em tempos de perseguição aos judeus, ter um sobrenome semita não é lá visto com muita tranquilidade – o patriarca, que tem orgulho de seu sobrenome, “procurava mesmo era encher a casa de música”. Nestes dias, “o tempo parava quando o som da flauta invadia a casa”.

Eduardinho, que não cuida dos mortos, mas do “último suspiro dos vivos”, é uma personagem apaixonante. E Alexandre Staut, autor da obra,  constrói um livro que, além de ser uma ode ao artista, discute temas delicados como o preconceito, por exemplo. E é exatamente aí que este “Jazz Band na Sala da Gente” atinge seu cimo.

A relação de Ondina com Buduçu, uma jovem negra que vem trabalhar com a família, faz parte desses bons momentos do livro. É de uma aspereza que primeiro impressiona, depois emociona.

Bonito na obra, no entanto, é a ratificação que o autor faz, ainda de que maneira discreta e subliminar, ao papel dos judeus no cenário musical. Benny Goodman, Gene Krupa e Artie Shaw, só para citar três, além de brancos e judeus, foram nomes importantes do jazz, considerada por muitos uma música de tradição puramente negra.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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