Hoje é dia de Isabel

Hoje, meu primeiro dia livre aqui no Mindelo, em Cabo Verde. Então quis fazer algo muito especial, alguma coisa pra grudar na alma e transformar este dia num momento inesquecível. Ofereceram-me um passeio pela Ilha do Fogo, mas eu declinei ao convite. Por um motivo muito especial: hoje o dia é de Isabel, minha afilhada crioula, filha dos meus amigos Janaína e João.

Isabel nasceu em 2014, no dia 22 de novembro. Vai fazer aniversário daqui alguns dias. Estivemos juntos todos estes dias, desde que cheguei e, não adianta, onde há amor, existe um mundo inteirinho de cumplicidades. Porque não nos encontrávamos há um tempo já, embora nos víssemos, vez ou outra, pelas telas de computadores. Mas vê-la, agora, foi como se o mundo inteirinho parasse para nos devolver encantamentos.

Ontem eu tinha um tempinho antes da apresentação do meu espetáculo e queria comer alguma coisa. Perguntei à Isabel se havia algum lugar perto do teatro. Ela disse que sim e me convidou para comer panquecas de chocolate. Embora convidativa, a sugestão não me parecia muito apetitosa para alguém que ia entrar em cena, dali poucas horas. Mas entendi o recado. Ela queria as tais panquecas e lá fomos nós, de mãos dadas ao café, ao lado do teatro.

No caminho, um mundo de histórias. Passei do Lobo Mau ao fantasma gigante; e, ela, de Capuchinho Vermelho à fada maravilhosa, em lapsos de segundos. No café, onde me levou,  pediu um “ chá de chocolate” – que não existia, mas que a atendente logo entendeu que seu pedido era, na verdade, um delicioso leite com chocolate – e as tais panquecas que vieram lindas, com uma decoração especial: desenhada com chocolates, uma carinha de menina com um sorriso largo e olhos atentos.

Isabel em seu primeiro aniversário, em 2015, em minha casa, em São Paulo

Naquele momento, em nosso jogo, eu era o Lobo Mau e então disse-lhe que eu iria comer aquela menininha sorridente, desenhada em suas panquecas de chocolate. Garfo e faca à mãos, fiz menção de destruir aquele rostinho lindo desenhado em seu adoçado. Quanto, enfim, ia cortar suas panquecas em pedacinhos, para facilitar-lhe a empreitada – afinal a pequena ainda não tem cinco anos –, ela fez um beicinho querendo chorar.

— Não, não destrua esse rostinho tão lindo – implorou-me.

Parei e olhei para ela que realmente estava apaixonada pela menininha desenhada com chocolate em suas panquecas.  Nossa, deu um aperto no coração, que indelicadeza a minha! Eu realmente estava prestes a destruir o sonho da menininha criada em jogo mas que, naquele momento, havia se materializado em sua iguaria e se transformara em um menininha realmente lida e meiga. Que tolo eu fui! Para prosseguirmos, teríamos que criar um outro jogo, com novas regras, para que a brincadeira pudesse abrir espaço para novos sonhos. Entendendo isso, devolvi-lhe, então, seus talheres e disse:

— Acabou a brincadeira. A menininha agora foi descansar em seu castelo e esse desenho de chocolate aí é apenas um desenho feito em algumas panquecas, que a menina Isabel vai comer agora.

Os beicinhos chorosos se transformaram em sorriso e a pequena Isabel pode, enfim, degustar suas deliciosas iguarias de chocolate.

Agora vou tomar banho e me preparar para encontrar a minha abensonhada Isabel, que já decidiu o nosso destino: quer ir ao parque de diversões. Por aqui, meu coração é só alegria e eu não vejo a hora de abraçar a minha afilhada querida e aprender um pouco mais com seu coração de menininha sonhadora que – ah, me contou ontem – quer ser bailarina quando crescer. “Uma linda bailarina”, exatamente como ordenou sua frase.

* na foto em destaque, Isabel e Cacida, em 2015

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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