Erika Riedel que se foi hoje…

Existem amigos e amigos da vida toda inteira. Erika Riedel foi uma dessas amigas da vida toda, embora a conhecesse há cerca de 20 anos, época em que chegamos à Praça Roosevelt.

Mas esses 20 anos foram muito intensos. Viajamos muito, passamos réveillon juntos em Nova York, Erika virou satyra numa turnê que fizemos pela Alemanha, emprestou dinheiro para eu dar entrada no meu apartamento da rua Augusta, me apresentou Parelheiros – que se tornaria um dos maiores amores da minha vida –, me auxiliou na estruturação do projeto Satyros Educação, que resultaria, pouco tempo depois, na estruturação da SP Escola de Teatro.

Foi a partir de provocações minhas (e muita, muita insistência) que a Erika escreveria o livro “Emilio Di Biasi: o tempo e a vida de um aprendiz” e se tornaria dramaturga; e foi a partir de provocações dela que eu tive o insight de criar o DramaMix, o festival de dramaturgias dentro da Satyrianas, e publicar meu primeiro livro de textos teatrais, “O teatro de Ivam Cabral – quatro textos para um teatro veloz”, pela Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Tanto Erika quanto eu, sempre fomos complexados. Ela não achava que tinha cacife para escrever um livro; eu jamais me apresentei como dramaturgo, tamanha minha insegurança.

Quando, enfim, a SP Escola de Teatro começou a se tornar realidade, minhas duas primeiras contratações foram a dela e a da Cléo De Páris. Fomos trabalhar no Bom Retiro, em um tempo onde tudo era sonho.

Erika entrou no projeto como minha assessora. Durante meses fazia as vezes de minha secretária, assistente pessoal e pau pra toda hora.

A partir deste momento, e por cinco anos, nossas biografias se borraram. Eu a promoveria a diretora de comunicação da SP Escola de Teatro e, então, juntos, passamos a responder pelo projeto que foi tomando dimensões enormes.

Fizemos muitas coisas lindas juntos. Muitas. Mas daí a Erika não aguentou o tranco e pediu pra se desligar do projeto. Juro que fiquei triste, puto mesmo. Afinal, depois de tantos sonhos juntos, tínhamos chegado num lugar tão bonito…

Ficamos sem nos falar por um tempo. Até que sua mãe, dona Erika – que tinha outro nome, mas que se apresentava com o nome da filha – me ligou um dia. Me conta que, por conta de um acidente no corredor do prédio, estava acamada. Me confessou neste telefonema que tinha medo da morte e me fez um pedido:

— A Erika não pode saber que eu liguei pra você. Mas, por favor, vocês precisam voltar a se falar.

Nesta altura eu estava em viagem pela Suécia e quando voltei ao Brasil, dona Erika, a mãe, havia morrido.

Das primeiras coisas que fiz ao retornar, comprei umas orquídeas e, sem avisar, apareci na casa da minha amiga. Isso deve fazer dois anos, mais ou menos.

Quando nos encontramos, na saída do elevador, nos abraçamos e choramos por muito, muito tempo.

— Foi a minha mãe que te pediu pra vir aqui, né?

Respondi positivamente com um balançar de cabeça.

— Eu sabia, ela sempre me disse que você era meu amigo da vida inteira.

A partir deste dia, nos falávamos com muita frequência. E, em muitos sábados, almoçávamos juntos em sua casa, até a chegada da pandemia.

Mesmo isolados nos falávamos sempre pelo WhatsApp, até que em setembro ela não respondia mais as minhas chamadas. Fiquei preocupado porque sabia que alguma coisa séria havia acontecido.

No início de outubro veio uma mensagem da Erika. Me conta que havia ficado internada, iniciado um tratamento de quimioterapia e estava tomando 28 comprimidos diariamente.

A partir daí, as mensagens foram ficando cada vez mais escassas e eu intuía que minha amiga não estava bem.

A última, em novembro, quando me mandou essas duas fotos aí, pra me contar que as orquídeas que eu havia dado a ela haviam florescido. Mas com um texto incompreensível.

Ainda continuamos a nos falar, mas de maneira cada vez mais estranhas. Já não respondia mais com textos, apenas com emojis.

Ontem desejei-lhe feliz natal. Mas ela não visualizou a mensagem…

Morreu hoje e ia fazer 55 anos no dia 1º de janeiro.

*** Foto da primeira firmação do conselho da Adaap: Vicente de Freitas, Ivam Cabral, Cléo de Paris, Dinovan Oliveira, Ângela Coelho da Fonseca, Erika Riedel, Samuel León, Soninha Francine, Rachel Rocha, Contardo Calligaris, Lauro César Muniz, Maristela Mafei e Sergio Campanelli

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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Um comentário sobre “Erika Riedel que se foi hoje…

  1. Estive como cuidadora de Erika nesses últimos momentos. A conheci a 4 meses e o que tenho a dizer é que aprendi muito com essa pessoa linda e iluminada. Nasceu uma amizade que durou pouco, mas que transmitiu muito.
    O que fica são as histórias de vida que ela contava, as piadas e o bom humor.

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