Há momentos em que a política parece um grande palco. Um palco burlesco, estranho, onde o roteiro raramente é dito em voz alta. Ele circula nos bastidores, nos silêncios, nos cálculos que não aparecem na cena. Às vezes, quando a cortina se abre, já sabemos que algo foi cuidadosamente preparado.
Foi mais ou menos isso que aconteceu agora com Erika Hilton.
Erika caiu numa armadilha enorme. Mas não foi ingenuidade. Quem acompanha sua trajetória sabe que ela percebeu perfeitamente o terreno em que pisava. Ainda assim decidiu entrar. Há decisões que carregam preços altos desde o primeiro passo.
A primeira parte dessa história é, talvez, a mais vil. Quando chegou a hora de disputar a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, a candidatura de Erika acabou sendo a única apresentada. Não houve disputa real. Foi como se alguém tivesse montado cuidadosamente uma fogueira e aguardado que ela própria se aproximasse da chama.
Não foi exatamente uma omissão. Foi algo mais sofisticado. E, por isso mesmo, muito mais cruel.
Os mesmos setores que agora alimentam o incêndio assistiram à cena se formar sem mover um dedo. Viram o circo pegar fogo e decidiram que o espetáculo seria útil. Alguns, aliás, passaram a soprar as brasas com entusiasmo.
O argumento que circula, às vezes em voz baixa, às vezes em gritos: como poderia presidir uma comissão de mulheres alguém que, segundo seus críticos, “não gesta”, “não menstrua”, “não possui biologicamente os traços da feminilidade”?
É uma pergunta apresentada como se fosse uma defesa da natureza. Mas, no fundo, revela mais sobre a política do que sobre a biologia.
Porque aqui começa a segunda parte da história. E, talvez, a mais reveladora.
Comissões dedicadas às mulheres espalhadas pelo Brasil – nas câmaras municipais, nas assembleias legislativas e mesmo em diferentes momentos no Congresso – não raramente foram presididas por homens. Homens que não gestam. Homens que não menstruam. Homens que, biologicamente, também não possuem os atributos que agora se dizem indispensáveis.
E, curiosamente, isso raramente provocou grande escândalo.
A própria comissão que Erika preside existe desde 2016. Desde então, a política brasileira convive com uma realidade curiosa: estruturas criadas para discutir os direitos das mulheres muitas vezes foram conduzidas por parlamentares homens sem que o país parecesse entrar em convulsão moral por isso.
Mas agora, subitamente, a biologia tornou-se um critério absoluto.
Há algo de profundamente revelador nesse deslocamento. Não se trata apenas de Erika Hilton. Trata-se de um momento da vida pública brasileira em que certos debates parecem menos interessados em resolver problemas do que em produzir inimigos.
Vivemos tempos estranhos. Tempos em que fogueiras simbólicas voltaram a ser erguidas com rapidez assustadora. E, como em toda fogueira, sempre aparece alguém disposto a carregar mais lenha.
Talvez por isso seja preciso atenção redobrada. Não apenas para os argumentos que aparecem em público, mas para os silêncios que os antecedem. Para as armadilhas que são montadas com antecedência. Para os palcos onde certos espetáculos parecem inevitáveis.
A política, afinal, também é uma arte da encenação. E nem sempre a plateia percebe quem escreveu o roteiro.
