Recebi, há algum tempo, um convite que me deixou genuinamente feliz. Fui chamado para escrever um artigo em um livro importante, cercado por psicanalistas que admiro profundamente. Gente que penso, leio, acompanho, respeito. O prefácio é de Marilena Chauí e a apresentação de Isildinha Baptista Nogueira. Vejam só o nível!
Estar no meio desse pessoal não é apenas uma honra acadêmica. É um reconhecimento que toca em lugares mais íntimos. Confesso: senti orgulho. E uma alegria silenciosa, dessas que não pedem alarde, mas ficam reverberando.
O livro se chama Ainda cabe sonhar e será lançado em breve. O título, por si só, já diz muito. Em tempos duros, ele afirma algo essencial: ainda cabe. Ainda há espaço para o sonho, para o pensamento, para a escuta, para o que não se mede nem se resolve rápido. O livro se dedica a pensar os sonhos. E, a partir deles, a infinidade de temas que se entrelaçam ao sonhar. Desejo, memória, linguagem, criação, sofrimento, imaginação, futuro.
Foi nesse território que escrevi meu texto: Quando o inconsciente escreve: Dramaturgias do invisível. Nele, me aproximo dos sonhos não apenas como material clínico, mas como uma espécie de escrita noturna, uma dramaturgia íntima que organiza fragmentos da vida em imagens e narrativas estranhas, inquietantes, abstratas. Me interesso pela maneira como o sonho monta cenas, desloca afetos, condensa figuras. E como essa lógica se aproxima, de forma surpreendente, da escrita para o teatro e o cinema.
O artigo nasce desse encontro entre campos que sempre dialogaram, mesmo quando fingem não se ouvir: a psicanálise e a cena. Penso o roteiro como um sonho que se oferece ao outro, um sonhar em público, atravessado pelo inconsciente de quem escreve e completado pelo olhar de quem assiste. A partir do teatro e do cinema, falo de dramaturgias que aceitam o desvio, o silêncio, a quebra da linearidade, e que convidam o espectador a uma escuta ativa. Quase analítica.
No fim das contas, escrever esse texto foi também uma forma de agradecer. Agradecer aos mestres que me antecedem, às leituras que me formaram, aos encontros que me atravessaram. E celebrar o fato de que, mesmo diante de tanta pressa e ruído, ainda podemos parar para sonhar. E pensar o sonho. Juntos.
Sim. Ainda cabe sonhar!
