Entre o método e o afeto

Nota de abertura

O texto que segue não propõe norma, não prescreve gesto clínico nem reivindica exemplaridade. Ele nasce de uma interrogação – e não de uma certeza – sobre os afetos que atravessam a experiência analítica. Sei que o tema pode causar ruídos, sobretudo em leituras mais literalizadas ou em tradições que apostam numa neutralidade entendida como ausência de afeto. Não é disso que se trata aqui. Trata-se de pensar a transferência em sua dimensão viva, com todos os riscos, limites e responsabilidades que ela implica. O episódio narrado não é oferecido como modelo, mas como problema: algo que exige elaboração, supervisão e ética – antes, durante e depois de ser nomeado. E, importante: o texto só se torna público, agora, com o conhecimento e o consentimento do paciente a quem se refere.

*

Há algo de profundamente curioso – e bastante delicado – na porta de entrada da clínica. Muitos dos meus pacientes não chegaram até mim pela psicanálise, mas pelo teatro. Não eram amigos, não dividíamos mesas nem confidências, mas sabíamos da existência uns dos outros, como quem cruza um rosto conhecido na cidade e guarda aquela imagem numa dobra da memória. A clínica, então, começa antes do divã. Começa no olhar que reconhece, no afeto que antecede o método.

Um deles atendi agora há pouco. Homem do mundo corporativo, desses que aprenderam a vestir armaduras de eficiência, embora carregue, quase escondido, um talento raro para a literatura. Li, nestas férias, um de seus romances. Um livro honesto, atravessado por uma pergunta inaugural que hoje, na sessão, finalmente ganhou corpo. Falamos disso. Falamos do texto, da vida, dessas zonas onde uma coisa contamina a outra.

Já estávamos nos despedindo. A sessão no limite do tempo, a chamada por vídeo, milhares de quilômetros entre nós, quando ele diz, quase como quem deixa cair algo sem proteção:

“Eu te amo, Ivam.”

Não pensei. Não medi. Não calculei. Respondi rápido, talvez rápido demais para os manuais:

“Eu te amo também, querido.”

Encerramos a chamada. E aí, sozinho, veio o silêncio. Aquele silêncio posterior às sessões que realmente aconteceram. Veio também a pergunta, sempre ela: até onde os afetos podem ir? Onde termina o humano e começa o risco? Ou será o contrário?

Freud chamaria isso de transferência. E chamaria bem. Esse amor não é simples, não é literal, não é romance nem amizade tal como conhecemos fora da clínica. É amor deslocado, amor antigo que encontra novo endereço, amor que se apoia na suposição de que ali há alguém que escuta, sustenta e não foge. Um amor que fala menos de mim e mais da história dele. Eu sei disso. Meus supervisores saberão dizer – e dirão – tudo o que precisa ser dito sobre essa cena.

Ainda assim, não consigo ignorar algo essencial. Que bonito quando uma análise chega a esse grau de afetação. Quando a palavra “amor” não aparece como acting out, mas como síntese. Como nome possível para aquilo que já circula há anos. Estamos juntos há quase cinco. Não é pouco. Não é abstrato. Não é só elaboração. É tempo compartilhado, atravessado por crises, avanços, silêncios, esperas. Uma relação que permeia dias, expectativas, modos de estar no mundo.

Gosto de pensar que a psicanálise pode ser viva. Que não precise ser um território asséptico, esterilizado de afeto, como se sentir fosse sempre uma ameaça ao pensar. Nomear um afeto não é necessariamente agir sobre ele. Às vezes, é exatamente o contrário. É o primeiro passo para que ele possa, enfim, ser elaborado.

Claro, vou enviar este texto ao meu paciente. Nada aqui se escreve sem consentimento. A clínica também é ética. Mas sigo acreditando que, se amo meu trabalho, se amo meus pacientes, se amo essa relação estranha e potente que nos mantém vivos na suspensão – esse espaço entre o que se sente e o que se compreende – talvez seja natural dizer. Mesmo sabendo que isso cobra um preço. Mesmo sabendo que amar, na psicanálise, nunca é tão simples.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2019

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