Entre o corpo e a água: notas sobre o ecofeminismo

Tivemos hoje, pela manhã, um encontro com Ivone Gebara, filósofa, teóloga e uma das principais pensadoras do ecofeminismo na América Latina, cuja obra articula, de forma radical e sensível, corpo, política, espiritualidade e ecologia.

Escutar Ivone Gebara é ser atravessado por uma evidência que, de tão presente, aprendemos a não ver: o mundo não está fora de nós. Ele se inscreve no corpo. E o corpo, por sua vez, é também natureza. Não como metáfora, mas como condição.

Ao nomear a natureza como corpo – e o corpo como natureza –, o ecofeminismo desloca a maneira como compreendemos a violência. Já não se trata apenas de estruturas sociais abstratas, mas de experiências concretas: o corpo das mulheres, historicamente convocado a provar sua competência, torna-se também o lugar onde se inscrevem as agressões econômicas, políticas, religiosas e simbólicas.

E há, nesse processo, uma sobrecarga silenciosa. As mulheres – todas elas, brancas, negras, indígenas –– foram socialmente designadas ao cuidado. Alimentar, limpar, sustentar a vida cotidiana. Um trabalho essencial, mas sistematicamente desvalorizado, realizado “por preço gratuito”. Quando o mundo entra em crise, é sobre esses corpos que a crise recai com mais força.

E é exatamente nesse ponto que a água emerge. Não como tema, mas como eixo. Porque a água atravessa tudo: o corpo, a casa, o alimento, a vida. Sem ela, não há possibilidade de sustentar o cotidiano. E, portanto, a sua ausência ou contaminação não é apenas um problema ambiental. É uma ruptura direta nas condições de existência.

Mas a água, como lembra Ivone, também revela a estrutura do mundo. Porque ela é classista, racista, anti-indigenista.

A sujeira não se distribui de forma neutra. As águas poluídas percorrem os territórios dos pobres, enquanto os espaços privilegiados se protegem, filtram, acumulam. Em cidades como São Paulo, convivem, lado a lado, a escassez e o excesso. Corpos que lutam pela água potável e outros que a consomem como luxo.

A água, assim, deixa de ser apenas elemento natural e se torna linguagem política. Expõe o modo como a vida é organizada. Quem sustenta, quem usufrui, quem paga o preço.

Diante disso, o ecofeminismo propõe uma reconfiguração do pensamento: a introdução da interdependência. Tudo depende de tudo. Mas essa interdependência não é, por si só, libertadora. Ela pode ser capturada, manipulada, organizada de forma a manter privilégios.

Por isso, é preciso disputar o seu sentido. Não uma interdependência a serviço das hierarquias, mas uma interdependência voltada à sobrevivência, à pluralidade, à mistura. Um pensamento que recusa o dualismo – homem/mulher, natureza/cultura, centro/periferia – e se abre ao múltiplo.

Um pensamento multicolorido. E, talvez, um dos gestos mais potentes dessa reflexão esteja no reconhecimento de que ninguém está fora da lógica que critica. Todos bebemos da fonte dualista, hierárquica, patriarcal. O desafio, portanto, não é apenas combater essas estruturas, mas superá-las. Inclusive dentro de nós.

Segundo Ivone, a saída não está na pureza. Está na mistura. Mistura de corpos, de histórias, de saberes. Mistura que não apaga diferenças, mas recusa organizá-las como desigualdade.

No fim, o que permanece não é uma solução fechada, mas uma proposição quase íntima. Cada um, cada uma, reconhecer-se como mundo. E reconhecer que esse mundo não tem uma única face, mas uma multiplicidade viva.

Talvez seja nessa consciência – simultaneamente política e sensível – que resida a possibilidade de tornar o mundo, ainda que pouco a pouco, um pouco melhor.

Foto: Rodrigo Reis

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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