EM PARELHEIROS, COM FILMES, MÚSICA E O MEU JARDIM

Tão bom ver crescer, quase do nada, uma imensidão de possibilidades.

Terminando o ano em Parelheiros que eu amo, com pessoas muito especiais. Lendo, vendo filmes e trabalhando no meu jardim que terá, além de roseiras, copos-de-leite, hortências, damas da noite e margaridas.

Agora, o bom mesmo é ter tempo para ver – ou rever – alguns clássicos do cinema. Ontem, “Suplício de uma Saudade”, de Henry King, com a estonteante Jennifer Jones; e “O Menino de Pijama Listrado”, de Mark Herman. Dois filmes tão, mas tão tristes…

O mais engraçado por aqui, todavia, são as músicas. Hoje à tarde, uma seleção extravagante. Depois de Agostinho dos Santos e Carpenters, surgiu um CD do Abba. Mas, incrível, tudo parece fazer o maior sentido. Aqui, perdido no tempo, Agostinho dos Santos e Abba tem tudo a ver.

Bom mesmo é poder voltar ao meu jardim, que andava bastante abandonado. Bonito é ver o roseiral cuidado. São mais de 50 variedades, num verdadeiro espetáculo de cores e tonalidades.

Meu grande desafio, no entanto, é ver florescer os copos-de-leite e as hortências. Plantamos hoje mais de 40 pés de cada espécie. E, juro, todos os buracos escavados por mim. Não fossem as luvas, minhas mãos estariam agora calejadas. Por outro lado, parece que levei uma surra. Meu corpo todo é só dor. Mas, reconheço, tem prazer aí. Tão bom ver crescer, quase do nada, uma imensidão de possibilidades.

Mas tenho um problema. Um grande e desafiador problema que deixei para resolver amanhã: cortar ou não dois pés de árvores frutíferas – uma mexeriqueira e uma laranjeira –, que estão velhinhas, velhinhas.

Há anos, o jardineiro aqui de casa vem tentando me convencer a cortá-las e eu tenho resistido. Mas, coitadas das duas, oprimem a jabuticabeira e e a ameixeira.

Mas não é nada fácil. Olho para as duas árvores, anciãs mesmo, e meu coração aperta.

Tudo tão bucólico por aqui. Enquanto escrevo, por exemplo, falta luz. Mas, confesso, adoro.

Não tenho vizinhos próximos e agora o silêncio só é quebrado pelos pingos da chuva.

Então, vou me surpreendendo. A escuridão revela, por exemplo, coisas fenomenais. Descubro que existem muitos – muitos mesmo! – vagalumes. Eu jamais os tinha visto antes.

Daí, também, surgem ao longe uns sons que eu também nunca tinha escutado. E que eu não consigo identificar.

Que não comecem a gritar os bugios. Deles, eu tenho medo. Embora bonitinhos e igualmente simpáticos, produzem um som aterrador.

Só um problema. Quando a luz acabou, estava assistindo “A Dama Oculta”, do Hitchcock. Bem no momento onde a senhora desaparece no trem.

Sim, há muitos mistérios suspensos por aqui. Talvez o melhor seja ir dormir e ver se o cansaço desaparece. Porque amanhã, com dor no coração, eu preciso conversar um pouco com as minhas duas vetustas árvores e decidir seus futuros.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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Um comentário sobre “EM PARELHEIROS, COM FILMES, MÚSICA E O MEU JARDIM

  1. Feliz por você ter decidido que tuas arvorezinhas viverão! Amei a narrativa que, de tão real, me fez te fazer companhia… Por segundos passeei no teu jardim… Bons sonhos!

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