Dois, o filho que nunca saiu da adolescência

Sempre penso. Nunca tive filhos, e se os tivesse tido, teriam hoje entre 25 e 30 anos. Eu teria gastado muito dinheiro com eles.
 
Pensei também, a vida toda. Tem gente que gosta de carrões, de luxo e de ostentação. Eu e o Rodolfo sempre gostamos dos espaços. Uma maneira que encontramos, também, para preservar as nossas liberdades. Não nascemos para que digam para a gente o que devemos ou não fazer. Isso é coisa de pais, né? Que colocam filhos no mundo para moldá-los às suas visões de mundo. Porque filho também é sinônimo de lugar, especialmente na visão dos pais.
 
Então chegou um momento que entendemos que os espaços teatrais que a gente criou eram os nossos rebentos. Assim, todo dinheiro que a gente ganhava na vida, não importávamos de gastá-lo com os espaços teatrais que a gente teve pela vida. Eram nossos filhos, sempre pensamos. Com todas as boas e más consequências.
 
Então eu olhava do lado, agradecia a Deus por estar empregando boa educação e saúde a esses nossos filhos, em todo momento de dificuldade. E foram tantos!
Cheguei a dizer para o Rodolfo que o Satyros Dois era o nosso filho que nunca saiu da adolescência, sempre muito problemático, dando trabalho o tempo todo. Seja por causa do barulho – foi um espaço muito barulhento mesmo –, seja pelas lendas que sempre rondaram a vizinhança: de que ali, no Dois, fazíamos rituais satânicos e surubas, sempre com muita perversão.
 
A lenda tinha até uma razão para existir. Foi no Satyros Dois que surgiram as nossas peças mais polêmicas, sempre com muito sexo e sacanagem. Chegamos a denominá-lo de libertino, em algum momento. E como deu trabalho esse adolescente, meu Deus! Fomos parar na polícia várias vezes por causa dele. Até acusação de tráfico de drogas a gente recebeu.
 
— Não usamos drogas, a gente rebatia.
 
— Não interessa. Se vocês veem pessoas usando drogas, são criminosos iguais, porque conivência é crime também, replicava o pessoal da polícia.
 
Em todas as crises, jogávamos sempre a culpa no Satyros Dois, o adolescente. Em 15 anos de existência, se orgulhava de nunca ter recebido nenhuma ajuda governamental. Mas também nunca ganhou nada: nenhum edital, nenhum prêmio, nunca foi nada. Ignorado totalmente pela crítica o tempo inteiro. Mas tão, tão amado pelo público!
 
Os próprios atores que trabalhavam no Dois, a maioria, queriam ir pro Satyos Um, como se ele fosse quase nada. Por isso a contumácia passou a ser sinônimo de ação para ele. Não deve ser muito tranquilo para alguém ser tão mal falado e renegado a vida toda.
 
Por isso sempre entendi sua teimosia adolescente. Sempre. E, principalmente, sabendo que era um menino de personalidade forte e indomável. Porque tudo o que a gente queria dizer e tinha medo de dizer, era no Dois que a gente vociferava. Sempre.
 
Vamos sentir saudades suas. Tantas histórias, tantas! Adeus, nosso adolescente querido. Seus 15 anos serão comemorados na lembrança e no coração de todo mundo que conviveu contigo. E foram muitas milhares de pessoas. Porque você foi guerreiro de verdade. Sobreviver a tudo o que passamos não é pra qualquer um, não.
 
Vai com Deus. Seu irmão mais velho, o Satyros Um, vai cuidar bem do seu legado, creia. Obrigado pelas histórias todas, pelas alegrias todas e por estas lágrimas, agora.
Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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