Crítica: Do que não é do câmbio automático

Parece-nos, a nós, do Diálogos, que a proposta de encenar no interior de um carro trouxe, na maior parte das Autopeças, a temática das discussões de relacionamento. Comento com o casal que vem comigo para dentro do automóvel; ambos, que, interessados pelo projeto, também acompanharam outras autopeças, confirmam a hipótese.

Aparentemente começa a acontecer o mesmo com Amores Vãos. Porém isso se revela, e felizmente, apenas o ponto de partida, pois entre as demonstrações de afeto, ansiedade e indecisão nos diálogos indiretos do cara e a mina, percebe-se o desenvolvimento de algo ainda mais delicado que a relação entre o casal protagonista: o planejamento de um crime.

Em Amores Vãos a concepção ultrapassa os limites do vidro elétrico e da trilha sonora do toca-fita. Os atores, seguros em seus papeis, entregam aos “participantes” gravações que sugerem pensamentos anteriores, reflexões reveladas ou narrativas futuras; nessas mesmas gravações encontramos, por vezes, orientações para o público passageiro; também param o carro num posto de gasolina, abastecem e fazem dos próprios frentistas figurantes dessa complexa trama; desdobram outros diálogos na loja de conveniência; e também contam com a participação de um ator externo, o que acrescenta mistério ao acontecimento. Isso soma pontos para o espetáculo (novamente receio usar indevidamente o termo), que explora as possibilidades da proposta para construir uma atmosfera calculadamente indefinida.

A perguntas que fiz na resenha de Autobahn começam a ser respondidas aqui. Apesar do registro realista, não se ignora o espaço e a posição em que se encontra a plateia.

É claro que algumas reações por parte dos atores são desproporcionais — pelo menos é o que chegou a nós do banco de trás; no entanto, isso não interfere em nossa imersão, em nosso envolvimento com o que se passa à frente. Tanto é que, de saldo geral, o casal e eu saímos com a impressão de que sabemos o que seria feito no desdobramento da cena, mas o sabemos intuitivamente, não racionalmente, e isso é interessante de se notar. Posso não entender, não saber estruturar nem mesmo dizer como tudo começa ou termina, mas pressinto, acredito e reajo.

AUTOPECAS
“Amores Vãos”
Direção: Andressa Cabral
Dramaturgia: Ivam Cabral
Elenco: Julia Bobrow e Henrique Mello

Fonte:  Claucio André. http://antroexpostodialogos.blogspot.com, 14 de novembembro de 2011

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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