Do que a história não lembra, eu não me esqueço

Já que, sabemos, a história não tem memória, eu tento lembrar por ela. E por nós.

Hoje faz dez anos da morte de Phedra de Córdoba. E talvez seja por isso, por essa ausência que insiste, que eu precise falar das mulheres trans no teatro. Phedra não foi exceção. Phedra foi presença.

Há uma espécie de conforto em acreditar que certas presenças são recentes. Como se o mundo tivesse, enfim, acordado melhor do que era. Como se as mulheres trans tivessem surgido agora, prontas, autorizadas, convidadas a existir. Mas não. Elas sempre estiveram por aí, desde que o mundo é mundo. Phedra estava. O que faltava – e ainda falta – é o olhar que sustenta, o espaço que não expulsa, o gesto que não tolera apenas, mas reconhece.

Eu falo com o pessoal do teatro. Onde vocês estavam quando essas corpas atravessavam a cidade apenas com suas dignidades possíveis? Onde estavam quando bateram às portas dos palcos, não por metáfora, mas por trabalho. Trabalho mesmo, com salário, horário, ensaio, cansaço, entrega? Phedra sabia o que isso custava.

Aqui, em São Paulo, há pelo menos 25 anos, elas estavam. Estavam no Satyros, estavam no Teatro Oficina. Phedra estava conosco. Estavam, sobretudo, insistindo. E insistir, naquele tempo, era um verbo perigoso. Não era tendência, não era pauta, não era linguagem curatorial. Era sobrevivência.

No Satyros, nunca foram paisagem. Nunca foram adereço. Eram protagonistas de suas próprias presenças. E, tantas vezes, de personagens que o mundo insistiria em negar a elas. Faziam mulheres cis, faziam vidas, faziam teatro. E o teatro, quando é justo, não pergunta pelo documento, mas pelo acontecimento. Phedra fazia isso com uma elegância que desarmava qualquer tentativa de redução.

Levamos isso conosco quando a SP Escola Superior de Teatro nasceu. Não como bandeira. Porque bandeiras, às vezes, escondem mais do que revelam. Mas como prática. Como cotidiano. Como aquilo que não se negocia. Desde o início, elas estavam ali, nos acolhendo. E isso não é pouco. Acolher é uma das formas mais radicais de existência. E eu ainda vejo Phedra nesses gestos.

Mas o mundo – esse mundo que agora aplaude – já foi, muito recentemente, um lugar de recusa explícita. Pessoas que não aceitavam ser atendidas por elas. Eu próprio presenciei isso mais de uma vez. Pessoas que recusavam o encontro. Pessoas que, diante de uma mulher trans, preferiam negar o próprio gesto mais simples: o de ser humano. Phedra também atravessou isso.

Hoje, há leis. Há discursos. Há uma certa adesão que se apresenta como consciência. E eu não desqualifico isso. Talvez seja, sim, uma forma de reparação. Ainda que tardia, ainda que, por vezes, superficial. Toda reparação carrega consigo um pouco de atraso.

Mas quando eu lembro – ah, eu não me esqueço! – das que vieram antes, das que abriram caminho com o próprio corpo, das que não tiveram o benefício da época, o coração aperta. Porque não se trata apenas de celebrar quem chegou. Trata-se de reconhecer quem sustentou a travessia. E Phedra sustentou.

A história não tem memória. Mas nós temos. E lembrar, às vezes, é o único gesto de justiça que ainda nos resta.

E viva Phedra de Córdoba!

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2057

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo