Existe sempre uma última vez. Ainda que a gente não saiba disso quando ela acontece. A última vez que eu havia criado uma personagem e sentido aquele frio elétrico atravessar o corpo antes de entrar em cena, foi em novembro de 2021. Estreávamos Aurora. Era, de certo modo, o espetáculo que nos trazia de volta do […]
Entre a liberdade e o tribunal
A minha geração cresceu olhando para trás, para os anos 1960, como quem observa um farol aceso no meio da neblina. Não éramos exatamente filhos daquele tempo, mas pegamos carona nele. Herdamos o grito pela liberdade, o desejo quase físico de viver sem amarras, de experimentar o mundo, os corpos, as ideias, as identidades. […]
O tempo que constrói a gente
Ontem me reuni com a turma matutina de Atuação da SP Escola Superior de Teatro. Existem encontros que não cabem numa agenda, simplesmente. Estou falando destes encontros que acontecem como quem abre o coração. Nestes, há sempre um misto de responsabilidade e esperança. Não era uma reunião burocrática. Antes, quase um rito. Durante noventa minutos, […]
Luiz de Nadai e o Dia em que a Juventude Morreu um Pouco
O Luiz de Nadai era o galã da nossa turma de Artes Cênicas, lá em meados dos anos 1980, em Curitiba. Mas não era apenas bonito – embora fosse. Havia nele uma espécie de luz natural; estava sempre sorrindo. Excelente ator, cantava, tocava violão, compunha. Namorava a Cláudia, linda, inteligente, dessas presenças igualmente luminosas. Os […]
𝐎 𝐚𝐦𝐨𝐫 𝐭𝐚𝐦𝐛𝐞́𝐦 𝐭𝐞𝐦 𝐩𝐫𝐨𝐧𝐭𝐮𝐚́𝐫𝐢𝐨
Nem todo trabalho se mede pelo que é feito, mas pelo modo como alguém permanece. Há quem cuide cumprindo tarefas. E há quem cuide ficando, escutando, sustentando presença. A diferença aparece quando o afeto entra em cena. Durante muito tempo, meus bichos foram cuidados no Pet Care. Não sem ambivalência. Havia ali profissionais muito competentes, […]
O dia em que o sonho virou faculdade
O tempo não pede licença. Ele chega, se senta à mesa e decide. Às vezes demora, às vezes parece esquecido, mas quando resolve agir, age com uma elegância quase insolente. É assim que me sinto agora, olhando para a SP Escola de Teatro e percebendo, com um certo espanto sereno, que ela se tornou faculdade. […]
O que a gente faz quando está vivo?
Há um certo pudor em falar de um trabalho enquanto ele ainda está nascendo. Como se nomear demais pudesse quebrar o feitiço. Tenho falado pouco de Quase Todos. Talvez porque ele ainda respire baixo, talvez porque algumas criações peçam silêncio para existir. Estamos ensaiando desde maio do ano passado, mas, na verdade, o tempo desse espetáculo […]
A vida trabalha em silêncio quando resolve fazer direito
Tenho uma notícia incrível. Dessas que coçam a língua, dilatam a pupila e fazem o corpo querer levantar da cadeira para anunciar ao mundo como quem grita bingo no meio de um velório, hahahaha. Talvez a melhor deste ano que mal começou e já resolveu me provocar. O curioso é que, lá no começo de […]
Sobre ciclos, escolas e escutas
Passei a vida inteira no teatro. Profissionalmente, quase quarenta anos. O teatro como casa, como linguagem, como modo de existir no mundo. Depois, a educação. Ou talvez ela sempre estivesse ali, disfarçada de ensaio, de sala escura, de conversa depois da apresentação. Os últimos vinte anos foram dedicados à descoberta de um território surpreendente: não […]
Carta aos estudantes da SP Escola de Teatro
Queridas e queridos estudantes, Escrevo como quem abre uma janela. Não para ensinar o vento a soprar, mas para lembrar que ele existe e que, às vezes, basta encostar o rosto para sentir que estamos vivos. É de vida que venho falar agora. Daquela que treme, que erra, que pulsa sem pedir licença. Da […]
