Ela se chama Emília. Tem vinte e um anos – essa idade em que tudo ainda está por acontecer, mas, curiosamente, algumas coisas já parecem vir prontas, como se tivessem atravessado gerações para pousar, intactas, nas mãos de alguém. Chegou ao Satyros pelas mãos do Mateus Araújo, desses amigos que a gente chama de “mais […]
Adeus, Juca
A morte de um homem nunca é apenas a interrupção de uma vida. É o fim de uma presença que sustentava um mundo. Com ela, desaparecem não só os gestos e as palavras, mas também aquilo que ainda não havia encontrado forma. As conversas por vir, os encontros adiados, os sentidos que só existiriam ali. […]
Quase todos os tempos
O tempo tem me atravessado de um jeito insistente. E eu ainda não sei exatamente o que fazer com isso. Não é uma tentativa de dominá-lo. Isso seria ingênuo. Mas de estabelecer com ele uma espécie de convivência possível. Quase um acordo silencioso. Porque o tempo, aprendi, não se deixa capturar. Ele atravessa. Talvez por […]
Aquilo que nos chama de volta
O elevador descia como descem os dias – silencioso, obediente a um mecanismo que não se vê – quando um vizinho entrou falando ao celular. Me cumprimentou com um leve aceno de cabeça, desses que não interrompem o fluxo da vida. E então, no curto intervalo entre um andar e outro, ouvi a frase que […]
Entre encontros e despedidas
Saí de casa hoje cedo para uma consulta com a minha endocrinologista. Vinte anos de acompanhamento. Vinte anos de pequenas conversas, ajustes, exames, silêncios partilhados. Sou assim: alguém que permanece. Guardo amizades da infância, da faculdade, do trabalho. Relações longas, como árvores que vão criando raízes invisíveis sob o solo do tempo. Talvez seja esse […]
A última vez
Existe sempre uma última vez. Ainda que a gente não saiba disso quando ela acontece. A última vez que eu havia criado uma personagem e sentido aquele frio elétrico atravessar o corpo antes de entrar em cena, foi em novembro de 2021. Estreávamos Aurora. Era, de certo modo, o espetáculo que nos trazia de volta do […]
Entre a liberdade e o tribunal
A minha geração cresceu olhando para trás, para os anos 1960, como quem observa um farol aceso no meio da neblina. Não éramos exatamente filhos daquele tempo, mas pegamos carona nele. Herdamos o grito pela liberdade, o desejo quase físico de viver sem amarras, de experimentar o mundo, os corpos, as ideias, as identidades. […]
O tempo que constrói a gente
Ontem me reuni com a turma matutina de Atuação da SP Escola Superior de Teatro. Existem encontros que não cabem numa agenda, simplesmente. Estou falando destes encontros que acontecem como quem abre o coração. Nestes, há sempre um misto de responsabilidade e esperança. Não era uma reunião burocrática. Antes, quase um rito. Durante noventa minutos, […]
Luiz de Nadai e o Dia em que a Juventude Morreu um Pouco
O Luiz de Nadai era o galã da nossa turma de Artes Cênicas, lá em meados dos anos 1980, em Curitiba. Mas não era apenas bonito – embora fosse. Havia nele uma espécie de luz natural; estava sempre sorrindo. Excelente ator, cantava, tocava violão, compunha. Namorava a Cláudia, linda, inteligente, dessas presenças igualmente luminosas. Os […]
𝐎 𝐚𝐦𝐨𝐫 𝐭𝐚𝐦𝐛𝐞́𝐦 𝐭𝐞𝐦 𝐩𝐫𝐨𝐧𝐭𝐮𝐚́𝐫𝐢𝐨
Nem todo trabalho se mede pelo que é feito, mas pelo modo como alguém permanece. Há quem cuide cumprindo tarefas. E há quem cuide ficando, escutando, sustentando presença. A diferença aparece quando o afeto entra em cena. Durante muito tempo, meus bichos foram cuidados no Pet Care. Não sem ambivalência. Havia ali profissionais muito competentes, […]
