Queridas e queridos estudantes,
Escrevo como quem abre uma janela. Não para ensinar o vento a soprar, mas para lembrar que ele existe e que, às vezes, basta encostar o rosto para sentir que estamos vivos. É de vida que venho falar agora. Daquela que treme, que erra, que pulsa sem pedir licença. Da vida que, quando encontra o teatro, aprende a respirar mais fundo.
Vocês chegam agora à SP Escola de Teatro. Já pensaram que chegar é um ato imenso, enorme? Mesmo quando ninguém vê. Chegar é atravessar um limiar invisível. Algo fica para trás, algo que começa a pedir passagem. O começo é sempre um território delicado, meio desajeitado, cheio de perguntas sem resposta e de desejos que ainda não aprenderam a se nomear. E isso é bonito. Muito bonito. Não se apressem em saber tudo. O teatro não gosta de quem chega com certezas duras demais. Ele prefere os atentos, os curiosos, os que escutam com o corpo inteiro.
Já tive a idade de vocês. Já estive exatamente aí, nesse mesmo ponto de partida. Com o coração acelerado, atravessado por uma mistura de medo e excitação, imaginando se o teatro seria grande demais para mim. Ou se eu é que era pequeno demais para ele. A minha história também começou numa escola, na PUC/PR, em Curitiba, muitos e muitos anos atrás. Foi ali que entendi, pela primeira vez, que o teatro não é apenas uma profissão, mas uma forma de estar no mundo. Um modo de olhar, de escutar, de se implicar com a vida.
Sou profundamente grato a quem veio antes de mim. Aos meus professores e professoras, que me ensinaram não apenas sobre cena, texto ou gesto, mas sobre ética, generosidade e rigor. Carrego cada um deles comigo. Em escolhas, em dúvidas, em gestos que às vezes repito sem perceber. Pessoas que me ensinaram que a cena começa muito antes do palco. Começa na escuta, no cuidado, na ética, na coragem de não endurecer. Porque professoras e professores são isso: presenças que continuam mesmo quando já não estão fisicamente ao nosso lado.
Vocês também encontrarão aqui quem ficará para sempre. Mesmo que não saibam ainda. Um olhar que muda tudo. Uma frase dita num encontro. Um silêncio compartilhado. Um fracasso que vira passagem. Um acerto que dá medo. Guardem isso: o teatro é feito dessas marcas quase invisíveis que só o tempo revela.
Não tenham medo de sentir demais. Nem de não saber. Nem de errar. O erro, aqui, não é queda: é linguagem. A dúvida não é fraqueza: é inteligência em estado nascente. Protejam suas delicadezas. O mundo vai tentar arrancá-la de vocês muitas vezes. Não deixem.
Porque a SP Escola de Teatro não é um lugar para se moldar corpos ou padronizar sonhos. É um espaço de investigação, de fricção, de descoberta. Um lugar onde o afeto não é fraqueza e o pensamento não é inimigo da emoção. Aqui, o trabalho é sério. Mas nunca triste. O rigor anda de mãos dadas com o cuidado. Aqui, o trabalho é sério porque a vida é séria. Mas, bom deixar registrado: a alegria também é. Séria.
Que vocês se deixem atravessar. Que saiam daqui diferentes — não mais seguros, talvez, mas mais vivos. Mais responsáveis pelo que dizem, pelo que silenciam, pelo que escolhem colocar em cena e no mundo.
Recebam o meu carinho e o meu respeito. Que esta etapa seja intensa, transformadora e, sobretudo, verdadeira. Que vocês saiam daqui um pouco diferentes de como entraram. Mais atentos ao mundo, mais disponíveis ao outro, mais responsáveis pelo que escolhem dizer em cena e fora dela.
Hoje, esta casa respira com vocês. Entrem. Com todo o meu afeto,
Ivam

Muito lindo ler-te Ivam, desejo um dia escrevas uma carta para quem saiu, ainda sonha e acredita na magia do encontro, do teatro e da vida.
Abraços com carinho
Daniela Serena