NA MÍDIA: Cabaret Stravaganza Leva o Cyberpunk ao Teatro

Foto: Flavio Morbach Portella

Usamos Facebook, Twitter, smartphone, Skype e outros recursos da era digital com tamanha naturalidade, que acabamos nem questinando os efeitos desse uso constante. Pensando em todas essas mudanças foi montada a peça “Cabaret Stravaganza”, que é um verdadeiro tapa na cada da Geração Y. Só podia ser obra do subversivo e selvagem grupo teatral Os Satyros.

O mundo das mídias sociais e dos gadgets foi transformado em pano de fundo para criar uma história que mistura David Lynch, crítica social e humanidade expandida – criando o Teatro Expandido. Acrescente a isso influências de escritores de ficção científica, como Philip K. Dick e William Gibson, e teremos uma análise cruel da presença da tecnologia em nossas vidas.

O diretor Rodolfo Garcia Vázquez criou um mix de cenas que a primeira vista pode parecer confuso, mas que reflete a aleatoriedade da internet. Afinal, somos bombardeados de informações, vídeos, textos, mensagens e outras coisas em cada conexão. Por isso, as cenas são feitas a partir desse contexto e seu conteúdo também tem forte ligação com o caos digital.

“Será que este corpo é meu?” é o grande mote do texto e aponta para uma questão muito importante para o cyberpunk: até que ponto ter partes artificiais pode alterar sua capacidade de ser humano?

Outro ponto escancarado é a exposição que as pessoas fazem da própria vida na internet. Para provar o quanto isso pode ser invasivo e doloroso, alguns atores contam relatos reais e banalizam experiências pessoais marcantes. Impossível não perceber o quanto é incômodo ter a vida de alguém exposta dessa maneira.

Não posso deixar de elogiar o trabalho dos atores, que estão totalmente entregues aos personagens. Dá pra ver que foram meses de trabalho (precisamente oito, segundo o diretor) e que aquele tipo de atuação não era pra qualquer um.

Destaco o monólogo inicial do ator Ivam Cabral, que usava um iPad e um efeito de distorção na voz (que a mecanizava). O texto é de quebrar a espinha do Batman!

O uso das tecnologias na peça é experimental e foge do padrão da atualidade (a maioria das peças que vi usava apenas um telão com cenas gravadas). Aqui as máquinas, gadgets e eletrônicos são parte do show e parecem ganhar vida própria no espetáculo. A iluminação é tão incrível que nos transporta para mundos virtuais absolutamente fantásticos.

Também existe uma constante participação do público, que interage com o elenco. O que tem tudo a ver com mídias sociais e a necessidade dos usuários de internet de se tornar um “criador de conteúdo”. Para vocês terem uma ideia, eu morri em uma das cenas da peça. Foi sensacional!

Cabaret Stravaganza é a peça perfeita para quem gosta de literatura cyberpunk, internet, mídias sociais, gadgets e de ver a humanidade escancarada, como em uma autópsia coletiva. E você pensando que xingar muito no Twitter era um ato de subversão!

Fonte: Raphael Fernandes, Contraversão, 26 de outubro de 2011

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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