A primeira vez que vimos uma transição de gênero acontecer não foi na vida. Foi num palco. E, talvez por isso mesmo, nunca mais conseguimos separar uma coisa da outra.
Era o início dos anos 1990. A gente ainda ensaiava o próprio lugar no teatro, como quem testa o chão antes de pisar com firmeza. O Teatro Bela Vista, na Major Diogo, era mais do que um endereço. Era uma espécie de laboratório de existências possíveis. Tínhamos a urgência da juventude e a imprudência necessária para não pedir licença.
Já tínhamos feito algum barulho com dois espetáculos improváveis, e preparávamos a nossa despedida daquele primeiro ciclo em São Paulo. Uma partida que, na época, nos parecia definitiva. Íamos embora para a Europa, sete anos de exílio voluntário, como quem acredita que o mundo precisa ser maior do que o próprio corpo.
Foi nesse intervalo, entre o que começava e o que ainda não sabíamos nomear, que ela apareceu. Vendendo brigadeiros. Mas não era apenas isso. Nunca foi apenas isso.
Ela surgia como menina nas ruas do centro, com uma delicadeza que parecia deslocada do concreto duro da cidade. E, no entanto, existia ali uma precisão absoluta: ela sabia quem era. Ou talvez soubesse quem precisava ser para continuar existindo. Porque, no bairro onde vivia, era um menino, filho de pais evangélicos, cercado por uma realidade que não permitia desvios. No centro, porém, algo se abria. E ali nascia Bibi.
Há pessoas que atravessam a vida como acontecimento. Bibi era uma dessas.
Foi o Rodolfo quem primeiro parou para escutá-la. E, como tantas vezes acontece no teatro, bastou uma escuta para que tudo se deslocasse. Ela disse que queria ser atriz. Não disse como quem pede. Disse como quem já era. E então ela entrou. Entrou no processo, entrou na peça, entrou em nós.
Quando partimos para a Europa, Bibi ficava. Estreava enquanto a gente se despedia. Como se alguém precisasse permanecer guardando aquela chama que ainda não sabíamos se sobreviveria.
Sobreviveu.
Quando voltamos, no ano 2000, encontramos outra – e a mesma. Já não era apenas Bibi. Era Big Loira. Era personagem de programas sensacionalistas. Era mito urbano. Era excesso. Era invenção de si levada às últimas consequências.
Ela havia se convertido ao movimento Raëliano e namorava um extraterrestre que passava muito tempo com a gente no Satyros. A gente nunca conseguiu vê-lo, assim, fisicamente. Mas sabíamos que era baixinho e tinha um pênis enorme e que Savana o amava acima de tudo. Phedra De Cordoba sempre tentou nos convencer de que este ser invisível era, na verdade, um Exu e que Bibi corria perigo com ele.
Neste momento, Bibi se rebatizava mais uma vez: tornava-se Savana Meirelles. Mas, para nós, continuava sendo Bibi. Sempre foi. Talvez porque, entre nós, os nomes nunca deram conta do que realmente importava. O que importava era a presença. E Bibi tinha uma presença que não cabia em nenhuma definição.
Ela viveu muitas vidas dentro de uma só: atriz, bilheteira, atendente, hostess e locutora da Rádio Livre Satyros, que transmitia em FM, na frequência 88,7 MHz, entre 2002 e 2005. Habitante das madrugadas e das brechas. Moradora eventual do nosso apartamento na São Luís, embora “morar” nunca tenha sido exatamente o verbo que melhor lhe servia. Bibi não morava. Bibi passava. Ocupava. Escapava. Sempre preferiu as ruas.
Havia nela uma recusa radical ao abrigo. Como se qualquer forma de proteção viesse acompanhada de uma perda maior. Muitas vezes fomos buscá-la na trincheira que inventou para si na 23 de Maio. E, ainda assim, nunca tivemos a impressão de que ela estivesse perdida. Era outra lógica. Outra cartografia.
E havia também o amor de Bibi, o tal extraterrestre. Um amor que, para muitos, parecia delírio. Para ela, era real.
Eu tentei conversar com ele, tendo Bibi como intérprete. Uma das experiências mais malucas e, ao mesmo tempo, mais honestas que vivi. Porque, no fundo, a questão nunca foi se ele existia. A questão era: o que sustentava aquele amor?
E ali havia algo inegociável.
Ele dizia a ela que liberdade era correr riscos. Que viver era recusar as convenções. Que amar era não ceder.
Bibi acreditava. Ou talvez não fosse uma questão de acreditar. Talvez fosse uma questão de coerência.
Ela viveu como quem leva até o fim aquilo que intui como verdade. Mesmo que o preço seja alto, mesmo que o mundo não acompanhe. Porque Bibi nunca pediu autorização para existir. E, talvez, seja por isso que sua presença ainda hoje nos atravessa.
Ela partiu em 2015, tinha 40 anos. Mas há pessoas que não desaparecem. Apenas mudam de forma. Continuam habitando os espaços que ajudaram a inventar.
Às vezes penso que a primeira transição que testemunhamos não foi apenas de gênero. Foi uma transição de mundo.
Porque, com Bibi, aprendemos que identidade não é um lugar onde se chega. É um movimento. Um gesto contínuo de invenção. Um risco assumido todos os dias.
E, desde então, o teatro nunca mais foi apenas teatro.
Passou a ser isso: um lugar onde a vida, quando encontra coragem, deixa de pedir licença para existir.
