Ela se chama Mawusi Tulani. E, além da atriz extraordinária que é, temos o privilégio de tê-la como formadora convidada na SP Escola Superior de Teatro, onde é respeitada, escutada, profundamente querida. Tenho por ela um carinho desses que não se mede em palavras.
Durante muito tempo, confesso, olhei para Mawusi com uma espécie de reverência silenciosa. Há nela algo de estrela – e não no sentido banal da palavra, mas naquele outro, em que o brilho não vem de fora, mas de uma combustão interna. Mawusi ilumina. Pelo talento, claro. Mas também pelo modo como ocupa o mundo.
Sua trajetória é única, atravessada por escolhas, deslocamentos e persistências. Há no seu olhar uma história que não se entrega de imediato. Mas que, quando se deixa entrever, revela camadas. Seu sorriso largo não é apenas um gesto: é quase uma linguagem. Uma forma de dizer “estou aqui” com uma intensidade que poucos conseguem sustentar.
Mas eu nunca tinha visto Mawusi fora desse lugar da cena.
Até que, num domingo qualquer, eu e Rodolfo voltávamos de um almoço num restaurante ao lado de casa quando a encontramos na calçada, em frente ao açougue.
Ela estava de chinelos Havaianas. Um vestido leve, desses que acompanham o vento. E aquele sorriso – sempre ele – aberto, luminoso, como se o dia passasse por ali antes de seguir adiante.
“Eu moro aqui”, ela disse, com a naturalidade de quem desmonta, sem esforço, qualquer expectativa. “Na Avanhandava.”
E algo, naquele instante, se deslocou em mim.
Porque há poucos dias tínhamos ido vê-la no teatro, em cena na “Agropeça”, do Teatro da Vertigem. Um trabalho potente, atravessado por uma presença que não pede licença. Mawusi em estado de criação. Mawusi como acontecimento.
E ali, diante de nós, estava também Mawusi com a lista de compras talvez ainda ecoando na cabeça. Mawusi que vai ao açougue. Que escolhe o almoço de domingo. Que volta para casa, cozinha, organiza, vive.
Foi um pequeno abalo. Desses delicados, mas definitivos.
Porque, em algum lugar muito profundo, ainda carregamos essa ideia de que as estrelas não descem à terra. Que não pegam fila, não escolhem cortes de carne, não lidam com o tempo concreto das coisas. Como se o cotidiano fosse incompatível com o extraordinário.
Mas não é. Talvez seja justamente o contrário.
Talvez o que torna Mawusi tão grande em cena seja, também, essa capacidade de permanecer inteira fora dela. De habitar o mundo em todas as suas dimensões. A do palco e a da cozinha, a do aplauso e a do silêncio doméstico, a do personagem e a de si mesma.
Há algo de profundamente bonito nisso.
Porque nos lembra que a arte não nasce fora da vida. Ela nasce dentro. Nos gestos mais simples, nos percursos mais banais, nas repetições que sustentam os dias.
As atrizes – mesmo as maiores, como Mawusi – também preparam almoço aos domingos.
E talvez seja exatamente por isso que, quando sobem ao palco, conseguem nos alimentar de algo que ainda não sabemos nomear.
