Aracy: o que ficou

Janeiro de 2016 ainda respira em mim como uma cena que não pede licença para voltar. Eu vinha de Parelheiros quando o vi. Um cãozinho no meio da Estrada do Jaceguava. O corpo miúdo atravessado pela pressa do mundo, muito sangue, a vida ainda ali, insistindo, mesmo em agonia. Parei. Há momentos em que a vida pede só isso: parar. Levei-o a um veterinário próximo. A pata, quebrada em vários lugares. O corpo, todo ferido. Ficou em casa até sarar por completo.

Mas que tive que aprender rapidamente e na marra. A casa da gente sempre é um acordo delicado. Nesta época, Chico e Cacilda não aceitaram a permanência daquele novo corpo que chegava pedindo lugar. Ah, o ciúme, esse amor que não sabe dividir. Nessa altura, porém, o cãozinho já tinha nome: Aracy. E já tinha feito o que os bons sabem fazer sem esforço algum: fisgado corações.

Os Satyros foram sendo tomados por ele como quem é tomado por uma ideia boa. Diego Rifer e Gustavo Ferreira o adotaram. Aracy passou a viver com eles e, durante o dia, o traziam para o escritório do Satyros. Sim, com Chico e Cacilda, que tiveram de engolir essa. Existem histórias de amor que não têm a linearidade que a gente espera delas.

Dócil, amável, absolutamente bagunceiro. Nos primeiros anos, enfrentou duas grandes cirurgias. Diego e Gustavo cuidaram dele com um amor que não faz barulho, mas sustenta. Amor de rotina, de madrugada, de remédio na hora certa.

Em 2018, chegaram Darlise e Victoria, mãe e irmã do Diego, e foi amor à primeira vista. Darlise começou avó e virou tudo. Aracy foi ficando mais ali, na casa delas, cada vez mais, até que, quando percebemos, já morava com elas. Príncipe. Filho. Cercado de cuidado, de atenção, de um cotidiano que também era uma forma de oração.

Teve muitos apelidos: Araponga, capivara. Teve, sobretudo, uma qualidade rara: bondade. Nunca avançou em nada, nem em ninguém. Só amor.

Ontem, o coração decidiu parar. Um ataque fulminante. E se foi. Agora fica esse silêncio que não é vazio. É presença transformada.

Aracy. Do tupi: mão do dia, a aurora. Há nomes que já são destino. Ele foi isso. Um começo. Um aprendizado silencioso que nos ensinou a parar, a cuidar, a dividir. Uma aurora que atravessou nossas vidas – e ficou.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2009

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