Andreas Mendes ou a delicadeza do rigor

𝐀𝐧𝐝𝐫𝐞𝐚𝐬 𝐌𝐞𝐧𝐝𝐞𝐬 𝐨𝐮 𝐚 𝐝𝐞𝐥𝐢𝐜𝐚𝐝𝐞𝐳𝐚 𝐝𝐨 𝐫𝐢𝐠𝐨𝐫

A primeira vez que vi Andreas Mendes não foi em um palco. Minha lembrança dela começa na SP Escola de Teatro, como estudante das primeiras turmas da instituição. Era uma estudante que se destacava. Não pelo esforço de aparecer, mas por uma espécie de coerência interna. Como se aquilo que ela pensava encontrasse, com naturalidade, um modo de estar no teatro.

Depois, me lembro dela em um lugar improvável: uma sala de reunião, quando trabalhava na Secretaria Municipal de Cultura. Nessas reuniões, o que me chamava atenção não era apenas o que ela dizia, mas como dizia. Havia ali uma qualidade rara. Um respeito que não era protocolo, mas escolha. Um cuidado na escuta, uma elegância no posicionamento, uma gentileza que não diminuía sua firmeza. Era alguém que ponderava. E, naquele tempo em que tantas vozes disputam espaço pelo volume, ela já se destacava pela elegância.

E então vieram os palcos.

Lembro de vê-la em cena e de experimentar algo que, no teatro, é cada vez mais raro: a surpresa contínua. A cada trabalho, Andreas parecia estar em trânsito. Não se repetia. Não se acomodava em nenhuma forma já conquistada. Havia sempre um risco, uma escuta nova, um território ainda não domesticado.

Em “Decameron”, com os Parlapatões, seu trabalho já era de uma dimensão impressionante. Havia ali uma atriz em estado de presença expandida. Alguém que compreendia o jogo, mas também o tensionava. Saí arrebatado. No entanto, vejam que curioso. Não falei com ela ao final. Talvez por timidez, talvez por essa estranha dificuldade que às vezes temos de nomear o que realmente nos atravessa.

Recentemente, fui assisti-la em “Agropeça”, do Vertigem. E ali, mais uma vez, Andreas se afirma. Mas o que impressiona em sua Dona Benta não é o excesso. É o rigor.

Há, em sua atuação, uma espécie de construção paciente, quase invisível, que vai se impondo aos poucos. Como se cada gesto tivesse sido pensado até encontrar sua exata medida. Como se cada palavra soubesse exatamente o lugar onde precisa pousar.

Sua Dona Benta não se apresenta como figura de autoridade pronta. Ela se constrói diante de nós. E é justamente nesse processo que a personagem ganha densidade.

Andreas trabalha com uma precisão rara. O tempo da fala nunca é apressado. O silêncio nunca é decorativo. Há uma inteligência muito clara na forma como ela organiza a cena e como distribui tensões, como sustenta a escuta, como faz da presença um campo de articulação.

E talvez seja esse o ponto mais forte do seu trabalho: uma atuação que não busca dominar a cena, mas estruturá-la.

Num espetáculo atravessado por forças tão intensas, sua Dona Benta opera como eixo. Não para estabilizar, mas para dar forma ao que, sem ela, poderia se dispersar. Há, nisso, uma maturidade impressionante.

É nesse lugar que Andreas se torna uma das grandes atrizes de sua geração, especialmente quando pensamos em um teatro político, um teatro de identidades, um teatro que não se contenta em representar, mas insiste em interrogar.

Andreas não é apenas atriz. É também dramaturga, diretora, performer. Fundadora da Cia. do Estômago, seu percurso revela uma artista que não espera ser chamada. Ela cria as próprias condições de existência. Está, com frequência, ligada a trabalhos relevantes da cena paulistana, como alguém que não apenas participa, mas incide.

Nos últimos anos, tem também se dedicado à formação. E há algo de coerente nisso. Porque ensinar, no caso dela, não parece ser transmissão, mas partilha. Um modo de devolver ao mundo aquilo que o mundo lhe ofereceu. Transformado, elaborado, vivido.

E então me volto àquelas primeiras imagens. As da jovem Andreas nas reuniões da Secretaria, escutando com cuidado, falando com precisão, sustentando o outro com respeito.

Sim, existem coisas que permanecem. Mas há também algo que cresceu, que se expandiu, que ganhou corpo, voz, gesto, pensamento.

Aquela jovem se tornou fundamento. E é a partir desse fundamento que hoje Andreas Mendes se impõe na cena teatral brasileira com uma força que não precisa de alarde.

Porque, no fundo, talvez seja isso. Algumas artistas chegam fazendo sentido.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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