Alteridade na relação com o meio ambiente

Com minha participação no painel de discussões, encerrou-se ontem o International Festival of Theatre Schools, na cidade de Thrissur, em Kerala, sul da Índia. Foram dias incríveis por aqui. Ficamos isolados na zona rural de Thrissur, onde por uma semana discutimos pedagogias do teatro ao redor do mundo. O grande encantamento foi conhecer Kalamaladan, a mais importante escola de katakhali e outras danças do sul da Índia – dez anos de formação, com dez horas diárias de treinamento e aulas. Minha fala, “Alteridade na relação com o meio ambiente”, versa sobre o nosso erro de pensar que ecologia e meio ambiente só diz respeito à natureza, rios, árvores. Para mim, antes, ecologia e meio ambiente têm a ver com gente, com pessoas e precisamos nos colocar no centro dessas discussões.

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Nosso grande erro é pensar que ecologia e meio ambiente só diz respeito à natureza, rios, árvores. Antes, ecologia e meio ambiente têm a ver com gente, com pessoas. Precisamos nos colocar no centro dessas discussões.

Vamos lembrar, primeiro, que é impossível falar em ecologia sem entender sua diferença com meio ambiente. A ecologia é uma disciplina científica que estuda as interações entre organismos e seu ambiente. Concentra-se nas relações entre seres vivos e os fatores ambientais que os cercam. A ecologia examina como os organismos interagem entre si e como eles se relacionam com os componentes não vivos do ambiente. Isso inclui o estudo de populações, comunidades, ecossistemas e os padrões mais amplos de distribuição e abundância da vida na Terra.

Por outro lado, o termo meio ambiente refere-se ao conjunto de condições, influências e elementos que cercam e afetam os organismos vivos em um determinado local. O meio ambiente abrange não apenas os componentes naturais, como ar, água, solo, flora e fauna, mas também os elementos sociais, culturais e econômicos que interagem com a natureza.

Embora a ideia de meio ambiente muitas vezes é associada à natureza, é importante ampliar essa concepção para além do ambiente natural e considerar o meio ambiente como o contexto em que a vida humana ocorre.

A afirmação de que o meio ambiente precisa garantir uma boa relação entre as pessoas destaca a importância das interações humanas no ambiente em que vivemos. Isso implica que o meio ambiente não é apenas o cenário físico, mas também o espaço social em que nossas relações humanas se desenvolvem.

Uma boa relação entre as pessoas no meio ambiente está diretamente relacionada à qualidade de vida e ao bem-estar social. Isso inclui aspectos como comunicação eficiente, respeito mútuo, cooperação e a promoção de um ambiente onde as pessoas se sintam seguras e apoiadas.

Reconhecer que o meio ambiente engloba as relações humanas destaca a responsabilidade coletiva na construção de uma sociedade sustentável. Isso implica não apenas a preservação da natureza, mas também o cultivo de um ambiente social positivo e inclusivo.

Quando um corpo tem uma dor de garganta, não é apenas sua garganta que está sofrendo. Antes, é o corpo todo que está adoecido. Em um contexto sistêmico, entendemos que os sistemas são compostos por partes interrelacionadas que formam um todo coeso. Da mesma forma, o corpo humano pode ser considerado um conjunto complexo, onde diferentes órgãos, grupos e funções estão interligados.

O corpo humano opera como uma rede intrincada de componentes interconectados. Cada parte desempenha um papel específico, e as funções de um órgão podem influenciar diretamente o desempenho de outros. Nesse sentido, uma dor de garganta pode ser indicativa de um desequilíbrio em algum lugar do sistema.

Uma abordagem sistêmica para entender os desafios globais implica reconhecer as interconexões e buscar soluções holísticas. Assim como no corpo humano, onde o tratamento de um sintoma muitas vezes envolve considerar o corpo como um todo, enfrentar questões globais exige uma compreensão abrangente dos sistemas complexos envolvidos.

Nesse contexto, a responsabilidade por manter a saúde global recai sobre todos os elementos do sistema. Ações em uma parte do mundo podem ter repercussões significativas em outras áreas,  destacando a necessidade de uma abordagem colaborativa e cooperativa para resolver desafios globais.

Portanto, a analogia com o corpo humano ilustra a interdependência das partes no mundo sistêmico e enfatiza a importância de abordagens integradas e cooperativas para promover a saúde e o bem-estar globais.

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A história que eu trago hoje para vocês tem como personagens transexuais, prostitutas, michês, traficantes e consumidores de drogas e muita marginalidade.

No ano de 2000, minha companhia de teatro, Os Satyros, chegou à Praça Roosevelt, uma região, naquele período, bastante perigosa. Inauguramos nosso pequeno teatro de 70 lugares e a partir dali nossas vidas não mais seriam as mesmas.

O primeiro susto: convidados para conhecer o nosso trabalho, os críticos e jornalistas se recusavam, afirmando que não frequentariam o nosso espaço por causa de sua localização, um dos lugares mais perigosos da cidade. Foi então que algumas mesas na calçada, em frente ao nosso teatro, mudariam para sempre o curso de nossas histórias.

Nosso teatro foi planejado com um café em sua entrada. Um jeito que encontramos para garantir encontros, conversas ou alguma diversão. Mas foi a partir das mesinhas na calçada que sentiríamos uma mudança significativa. Porque estavam ali, à disposição de quem passasse, quem quisesse trocar algumas conversas.

Assim, entendemos que habitar o centro de uma das maiores cidades do mundo – a grande São Paulo tem cerca de 20 milhões de habitantes – era, antes de qualquer coisa, assumir a sua tradição. E a tradição ali era a convivência com o diferente, com o inusitado, com o impossível.

Desta forma, fomos conhecendo os traficantes, as transexuais, os moradores em situação de rua e, passado um curto período, várias dessas pessoas estavam trabalhando conosco em nosso teatro. Como técnicos de som ou de luz, na limpeza e manutenção do espaço, e, também como atores de nossas peças.

Rapidamente nosso trabalho foi assimilado pela cidade e aqueles críticos e jornalistas que disseram que não iriam conhecer o nosso espaço, tornaram- se frequentadores assíduos. Com tamanha repercussão, fomos convidados pelo prefeito da cidade de São Paulo a desenvolver um projeto de criação de uma escola de teatro. Foi assim que nasceu, em 2009, a SP Escola de Teatro, um dos maiores centros de formação das artes do palco do mundo.

Em nossa escola, trabalhamos com oito linhas de estudo: Atuação, Cenário e Figurinos, Direção, Dramaturgia, Humor, Iluminação, Sonoplastia e Técnicas de Palco; e recebemos anualmente cerca de 400 alunos em formação regular; e 2.000 em nossos cursos de extensão.

Nossa pedagogia se estabelece a partir da Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, e com ideias do geógrafo brasileiro Milton Santos que trabalha a ideia do “espaço solidário” para refletir sobre a compreensão da geografia e das relações humanas no contexto do espaço geográfico, como uma abordagem crítica em relação às desigualdades e injustiças presentes na organização do espaço. A geografia a serviço da necessidade de solidariedade e cooperação entre diferentes lugares e grupos sociais.

Desta forma, levamos para dentro da pedagogia da escola toda nossa relação com a geografia da Praça Roosevelt. Nossas recepcionistas são todas transexuais. Além de todos os nossos cursos serem gratuitos,  uma parte significativa dos nossos estudantes recebem uma bolsa mensal para estudar conosco, num valor de meio salário mínimo.

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Na educação, cada vez mais, tenho a sensação de que o menos importante é o aprendizado em sequência. Na marcha cognitiva, e se pensarmos que estamos falando de estudantes que já concluíram o Ensino Médio, o que menos importa é conhecer superficialmente alguma teoria.

Sempre gosto de lembrar que um especialista do teatro grego, por exemplo, pode saber tudo dos gregos – seus autores e sua mitologia –, e desconhecer, por completo, o teatro pós-dramático. Ou o contrário. Desta forma, criar redes e diálogos interdependentes entre conhecimentos variados é, em nosso tempo, a tarefa mais importante.

Na SP Escola de Teatro trabalhamos o conceito do não-acumulativo. Estruturamos nossa formação em quatro módulos, que duram um semestre cada. Estes módulos são células autônomas que têm total independência entre si. Para a SP Escola de Teatro interessa muito mais o curso, o procedimento, do que o resultado final. Para nós, o importante é sempre não estar pronto.

No ensino formal, fomos orientados a buscar as referências da tradição sem, no entanto, criar qualquer paralelo com o contemporâneo. Nas escolas de teatro, primeiro vinha a obrigação de montar um clássico do teatro romântico, sem que isso traçasse qualquer cotejo com o tempo e apreensões deste estudante. Ou, quando acontecia, era sempre de maneira superficial e nada evidente.

Talvez a grande desmotivação do aprendizado esteja justamente neste ponto: impor uma teoria sem que ela esteja ajustada à realidade ou vivência do educando. À vista disso, não seria mais producente falar de teorias, por exemplo, se as aplicarmos à realidade de um território circunscrito? É sempre  possível – quiçá fundamental – traçar um paralelo entre a contemporaneidade e a tradição.

Não podemos olhar para a história como algo imutável porque há sempre flexibilidade em seu trânsito. É possível, ainda que de maneira abstrata e subjetiva, modificarmos seu fluxo e sua condução. A história consegue, sim, ser modificada. Acertos e erros do passado podem se tornar espelhos para o presente. Mas a análise mais eficaz, contudo, é quando este percurso é olhado no detalhe, na direção do contemporâneo para a tradição; no resgate cronológico, portanto.

Em vias contrárias, revelar ao contemporâneo a importância da tradição é papel do educador. Seja no teatro, na história ou na geografia.

Compreendemos a história não como uma narrativa museológica, fundada estritamente na cronologia. Para nós, o teatro e, por conseguinte sua história, deve estar imbricado com o tempo dos estudantes. Dessa forma, nosso ponto de partida estará sempre vinculado à contemporaneidade dos estudantes.

É com base na experiência, em questões contemporâneas, que acionamos a tradição teatral. Parafraseando Paulo Freire, podemos dizer que compartimentar o conhecimento em disciplinas parece-nos mais um processo de aprisionamento e colonização do pensamento, do que de fato a ideia de conceber a educação como prática de libertação.

São dentro desses princípios que temos mantido na SP Escola de Teatro o interesse pela dialética do conhecimento, pela historicização e a pluralidade do pensamento. Em nossa instituição, não acreditamos na história do teatro confinada em grades, mas confrontada, questionada, ampliada e revista do lugar onde nos encontramos.

Pouco mais de vinte anos da chegada dos Satyros à Praça Roosevelt, muita coisa aconteceu por ali. O local abandonado e perigoso de outrora é hoje um polo cultural potente e solidário. Prova de que, com responsabilidade e cuidado é possível colocar a arte  a serviço da sociedade. E assim, criar um espaço onde arte, ecologia e meio ambiente possam caminhar numa mesma direção.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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2 comentários em “Alteridade na relação com o meio ambiente

  1. Ivam, li com cuidado e atenção seu texto. Você sabe a admiração que tenho pela sua trajetória e do Rodolfo. Adorei ler seu artigo, tão potente e vivo!!!!! Bjo, Renato

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