Adeus, Juca

A morte de um homem nunca é apenas a interrupção de uma vida. É o fim de uma presença que sustentava um mundo. Com ela, desaparecem não só os gestos e as palavras, mas também aquilo que ainda não havia encontrado forma. As conversas por vir, os encontros adiados, os sentidos que só existiriam ali. A morte não silencia apenas uma voz. Ela desloca tudo o que girava em torno dela.

Juca de Oliveira morreu aos 91 anos. E, ao dizer isso, algo em mim resiste à forma seca da frase. Porque Juca não cabia em linhas de obituário. Ele era desses que continuavam em movimento mesmo quando aparentemente estavam parados. Um homem de teatro no sentido mais profundo. Não apenas alguém que fazia teatro, mas alguém que habitava o teatro.

Juca esteve tantas vezes conosco na Praça Roosevelt. Chegava com aquela curiosidade que não envelhecia. Durante anos, me ligava. Sem cerimônia, sem preâmbulo. Dizia que queria saber das “fofocas”. Mas não era exatamente fofoca. Era outra coisa. Era uma forma de permanecer dentro. De não sair da cena. Pedia que eu o mantivesse atualizado. O teatro como um organismo vivo. E ele, mesmo à distância, precisava continuar respirando junto.

E conversávamos. Horas.

Quem nos apresentou foi Fernando Peixoto. Fernando dizia que Juca precisava estar por perto. Que era uma espécie de sentinela. Nunca esqueci essa palavra. Sentinela. Alguém que vigia, que protege, que observa a noite enquanto os outros dormem. E, de algum modo, era isso mesmo. Juca cuidava do teatro. Não como quem vigia de fora, mas como quem ama demais para se ausentar.

Lembro do dia em que assistimos juntos Os 120 Dias de Sodoma. Ele e Fernando. Saíram atravessados. Os dois não quiseram ir embora imediatamente. Fomos para o Planetas. Ficamos até o restaurante fechar. Havia ali uma perplexidade quase juvenil. Um espanto. E eu pensava: como os dois ainda se surpreendiam com alguma coisa. Como ainda era possível surpreendê-los. Isso, vindo de quem já tinha visto tanto, era uma lição silenciosa.

Depois que Fernando morreu, os telefonemas rarearam. Como se uma parte daquela conversa tivesse ido embora com ele.

Juca fará falta. Não simplesmente pelo ator imenso que foi. E foi. Não apenas pelos textos, pelas interpretações, pela presença. Fará falta porque representava algo que vai rareando. Uma relação amorosa, quase ética, com o teatro.

Juca amava o teatro.

E amar, no caso dele, era um verbo ativo. Juca lia os roteiros de teatro dos grandes jornais. Sabia o que estava em cartaz. Acompanhava quem estava começando. Interessava-se pelos jovens. Perguntava nomes. Guardava histórias. Torcia. Havia nele uma alegria genuína diante dos que chegavam. Como se cada novo artista fosse também uma continuação dele próprio. Como se o teatro não fosse uma trajetória individual, mas uma corrente. Um tempo atrás me ligou para saber o que eu achava do trabalho do Teatro de Contêiner, quem eram, o que pretendiam, o que faziam ali na região da Luz. Combinamos uma visita ao pessoal da Cia. Mungunzá. Mas não deu tempo.

Ele pertencia a uma linhagem. Daqueles que vieram antes. E sabia disso. Não no sentido de carregar um peso, mas de sustentar uma passagem. Havia, em sua presença, algo de ponte. Entre tempos. Entre modos de fazer. Entre gerações que, muitas vezes, não se escutam.

Talvez por isso sua ausência seja tão difícil de medir. Porque não se trata apenas de alguém que parte. Mas de um modo de estar no mundo que se torna mais raro.

Fico pensando que, no fundo, Juca nunca quis saber por saber. O que ele buscava era outra coisa, quase uma pulsação. Queria pertencimento. Queria sentir se o teatro ainda respirava. Se ainda havia alguém acendendo a luz antes da cena. Alguém disposto a permanecer, mesmo quando tudo parecia ruir.

Talvez quisesse apenas isso: confirmar, em cada conversa, que o teatro não estava sozinho. Que ainda havia quem o escutasse. Quem o atravessasse. Quem aceitasse, como ele aceitou, a tarefa silenciosa de mantê-lo vivo.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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