A REVISTA SUECA SCEN & FILM FALA SOBRE A SP ESCOLA DE TEATRO

Em sua edição de junho, a inportante revista Scen & Film, da Suécia, dedica cinco páginas sobre a SP Escola de Teatro


No Brasil, o ator é o médico da alma

Há uma parceria contínua, um intercâmbio de professores e alunos entre a Stockholm Academy of Dramatic Arts (StDH), na Suécia, e a SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, no Brasil. Há um compromisso social, uma nova pedagogia e um foco voltado para o processo artístico.

Na SP Escola de Teatro, o ator é encarado como um médico da alma, como um professor em seu pleno exercício da cidadania. A Escola é para todos, independentemente de sua classe econômica ou social. No Brasil, a educação de qualidade é acessível apenas aos endinheirados. Cerca de 60% dos alunos vêm das favelas. A perspectiva social está em toda parte. E praticamente todo mundo que conclui os quatro módulos na Escola encontra um emprego.

Durante uma visita ao Teatro Unga Klara, em um seminário com Susanne Osten, imagens do entorno de uma das sedes da Escola, na Praça Roosevelt, foram apresentadas pelo diretor executivo da SP Escola de Teatro, o ator e diretor Ivam Cabral, e o coordenador do curso de Direção, Rodolfo García Vázquez. Eles falaram sobre a Escola e sua companhia, Os Satyros, que apresentaram, como convidados do Unga Klara, a peça “Cabaret Stravaganza”. Ivam e Rodolfo fundaram o grupo em 1989. Depois de anos de exílio em Lisboa, eles voltaram para São Paulo em 2000, procurando um lugar para estabelecer sua companhia, que não fosse uma área elegante e nem cara.

“Nós achamos nosso caminho na Praça Roosevelt!”, dizem os dois.

A fundação da escola está associada tanto com Os Satyros, que realizou várias oficinas em favelas, bem como com a cultura no entorno da Praça Roosevelt, que se tornou um ponto de referência em São Paulo. Quando eles chegaram, foram recebidos por um ambiente deteriorado, brutalmente violento e perigoso, com pessoas da chamada classe marginal da sociedade.

“Nós vimos as pessoas, as prostitutas, transexuais, travestis, drogados e traficantes, como uma parte importante da realidade. Eles têm de contar as histórias de suas vidas no teatro”, diz Rodolfo García Vázquez.

Os transexuais costumam ficar completamente fora do mercado de trabalho. Agora, eles trabalham na escola e recebem incentivos para estudar. A Escola lhes proporcionou uma inserção completa no mercado de trabalho e na sociedade. E a discussão sobre gênero, classe e etnia está presente em seminários na Escola também.

E, assim, uma coisa levou a outra. Uma nova geografia foi criada em torno da Praça Roosevelt. Outros teatros e bares surgiram, a área viu sua transformação e tornou-se um ponto de encontro badalado. São Paulo é uma megalópole do tamanho da Bélgica. E a ideia de uma escola surgiu entre teatros situados lá.

“Desde o início de 2009, a SP Escola de Teatro tem crescido rapidamente para se tornar a maior em sua área, na América Latina, um sucesso, com uma turma de 400 estudantes de todo o continente. Mesmo outros, vindos da Espanha e de Portugal”, diz Ivam Cabral.

Há oito cursos diferentes. Atuação, Cenografia e Figurino, Direção, Dramaturgia, Iluminação, Sonoplastia e Técnicas de Palco. E Humor, não como entretenimento, mas em um contexto social e histórico. Afinal, o riso é uma boa maneira de se chegar a isso.

O que a Escola pode nos ensinar?

A questão vai para a formadora Ulrika Malmgren, professora na StDH. Ela vem estudando o Brasil por muitos anos e encontrou a SP Escola de Teatro na internet, enquanto pesquisava o trabalho de um grande pedagogo brasileiro, Paulo Freire.

“Tivemos uma forte e boa impressão, na primeira reunião com Ivam Cabral. Eles têm uma maneira completamente diferente de trabalhar e de pensar. Somos um pouco egocêntricos aqui, achamos que somos os melhores. Lá, o objetivo principal é se comunicar com a plateia. O mais importante é atingir isso. A Escola está constantemente trabalhando com teatro local específico (site specific). Teatro direto, aqui e agora. A dinâmica é a de tornar os atores corajosos e sem medo de errar. Eles não colocam suas próprias carreiras privadas no centro do foco”, diz Ulrika Malmgren.

A Escola é inspirada por três pensadores. O pedagogo Paulo Freire, para a base pedagógica da educação. O ensino é encarado como uma jornada mútua, durante a qual o aluno e o professor são iguais, um processo em que ambos são igualmente responsáveis, ​​no que diz respeito a compartilhar. Os outros são o geógrafo Milton Santos, com pensamentos sobre um espaço de eventos no qual interagem a filosofia, a antropologia e a solidariedade, bem como Fritjof Capra, um físico austríaco que desenvolveu um pensamento holístico orgânico.

A educação é baseada em módulos, divididos nas cores Verde, Amarelo, Azul e Vermelho.

“Como o metrô de São Paulo, onde cada linha tem uma determinada cor”, diz Rodolfo García Vázquez. “Cada cor tem um pensador como base. Um novo a cada semestre. Os alunos escolhem um módulo, independentemente de suas áreas de estudo. Todos se encontram com alguns pontos em comum para se relacionar. As aulas não são fixas, o aluno escolhe estudar pela manhã ou à tarde, cinco horas por dia. Novos alunos são misturados aos antigos, ao longo dos dois anos de curso. No caso de surgir uma vaga, um novo aluno pode preenchê-la, portanto, não há lugares vazios.”

“Estamos trabalhando com o conhecimento não acumulativo”, diz Ivam Cabral. “A Escola funciona sempre em relação ao que ocorre em nosso tempo. Nós trabalhamos na horizontalidade, mas, a partir daí, podemos viajar para trás, para os gregos antigos. A educação, como um todo, é um processo, onde todos compartilham. Você testa, experimenta, busca conhecimento e faz pesquisa em conjunto. Mas não para exibir os resultados.”

Simon Norrthon, ator e chefe do departamento de Academia de Artes Dramáticas da StDH, viajou para São Paulo, juntamente com Ulrika Malmgren, em 2011. Ele foi contaminado pela alegria na escola.

“Há uma força motriz enorme, dentro dos estudantes, bem como dos professores. A Cultura é seu oxigênio, pois eles sabem exatamente o que podem usar do teatro para isso. A parceria com a Escola brasileira dá impulsos importantes a nossos alunos e professores. E uma injeção de ânimo para o teatro sueco.”

E o que diferencia a StDH  da SP Escola de Teatro?

“Nós temos uma longa história. Nós temos raízes na academia, uma cultura de elite e de grandes instituições, que nos deixaram traços fortes. Nós temos o ofício, mas não temos mais o olhar para o público e a discussão contemporânea, que eles têm. Queremos alcançar isso mantendo, ao mesmo tempo, o requinte e o artesanal. Na SP Escola de Teatro, todo mundo coopera o tempo todo e os atores são uma parte natural desse processo”, diz Simon Norrthon.

“Nós queremos mais esse tipo de interação na StDH, no futuro. Ter um novo pensador a cada semestre, como inspiração, seria um impulso divertido, não menos importante para os professores, no início de cada novo curso.”

Há uma diferença entre as escolas, ou seja, a SP Escola de Teatro está no âmbito da Secretaria da Cultura de São Paulo, enquanto a StDH está no âmbito do Ministério da Educação da Suécia. O que significa isso?

“A SP Escola de Teatro tem uma grande liberdade, pois eles fazem o que querem, eles não têm de contabilizar o desempenho do aluno, podendo, assim, concentrar-se no processo. Mas eles estão fora das grandes redes, como o Erasmus, bem como do financiamento de pesquisa. Agora o Brasil está focado na Cultura. Mas se um ministro fraco é chamado para o comando da pasta da Cultura, você não sabe o que pode acontecer. Nós, da StDH, precisamos trabalhar de acordo com um plano de estudos e alcançar objetivos específicos. Estamos sendo analisados pela Agência Nacional Sueca para a Educação Superior, ou Högskoleverket. Existe uma avaliação do estudante, que pode ser feita a partir de uma classe, o que é bom. Isso torna mais fácil avaliar um curso. Nós não fazemos arte, educamos artistas. Então, é melhor estar no âmbito do Ministério da Educação”, diz Norrthon.

Fatos sobre a parceria entre as Escolas de Teatro

A colaboração e o intercâmbio entre as duas Escolas podem continuar por um período máximo de oito anos. O fundo Palme-Linneus (que mantém a StDH) é aplicado anualmente. Em 2012, dois planejadores foram enviados ao Brasil para organizar o trabalho e fazer contatos.

Em 2013, aconteceu o primeiro intercâmbio de professores, no que diz respeito à Atuação; um professor de Humor e um professor de Pedagogia do Brasil chegou aqui, onde permaneceram por três semanas. No mesmo período, um professor de expressão corporal e um professor de teatro específico na comunidade (community specific theater) viajaram para São Paulo.

Em 2014, mais quatro professores suecos e brasileiros viajarão para cada país, por três semanas, bem como dois estudantes ficarão em intercâmbio por três meses. A troca vai ocorrer enquanto os alunos estiverem envolvidos no curso de Young Audience (público jovem), ou Ung Publik, o qual aborda o trabalho em ambos os países, em um projeto comum sobre etnia e identidade.

Fonte:  Scen & Film, Junho de 2013

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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