Acordei com o café ainda quente e o mundo já gritando na tela.
Ontem à noite, o Fantástico havia exibido mais uma dessas reportagens indignadas, denunciando que as redes sociais, especialmente Facebook e Instagram, trabalham para viciar seus usuários, sobretudo adolescentes. A matéria tinha aquele tom de escândalo moral tardio, como se estivéssemos descobrindo agora que alguém, em algum lugar, deseja capturar nossa atenção. Fiquei pensando: que ingenuidade é essa? A televisão faz isso há décadas. Os estudos de audiência, as curvas de retenção, os horários estratégicos de programação – tudo isso queria o quê, senão nos manter ali, hipnotizados, fiéis, dóceis?
Talvez a diferença não esteja no desejo de nos viciar. Talvez esteja na eficácia.
A televisão disputava nosso tempo. A internet disputa nossa alma. Ela não quer apenas que fiquemos. Quer que confessemos. Quer que desejemos diante dela. Quer que revelemos nossos medos mais íntimos em forma de clique. A televisão nos embalava. A internet nos esquadrinha.
Eu nem pretendia escrever sobre isso. Parece óbvio demais. Mas algo me atravessou hoje cedo, ainda à mesa do café da manhã, com o pão na chapa esfriando ao lado da xícara.
Abri o Facebook distraidamente. E ali, entre uma memória de dez anos atrás e a foto do cachorro de um amigo, surgiu a sugestão: compre um caixão. Calma, um caixão? Sim, você leu corretamente, um caixão de defunto! À venda. Online. Num site chinês.
Fiquei alguns segundos olhando para aquilo, tentando entender se era ironia, algoritmo ou profecia. Por que, em nome de todos os deuses analógicos, eu compraria um caixão pela internet? Que rastro deixei? Que palavra digitei? Que silêncio foi interpretado como prenúncio de morte?
O absurdo me fez rir. Depois me fez arrepiar.
Porque ali não estava apenas um erro de segmentação. Havia algo de mais sombrio: a suposição de que tudo pode ser mercadoria, inclusive a nossa finitude. A morte transformada em banner. O luto reduzido a oportunidade de conversão. “Clientes que compraram antidepressivos também se interessaram por urnas funerárias.” O capitalismo, quando se sofistica, aprende a negociar até o nosso último suspiro.
Pensei, por um instante, que se eu não estivesse com minha análise em dia – e com os antidepressivos também – poderia ter escorregado fácil para uma melancolia profunda. Não é difícil. Basta um pequeno empurrão. Uma sugestão mal colocada. Um algoritmo que decide que hoje é um bom dia para lembrar você de que vai morrer.
O que me assusta não é a existência do anúncio. É a naturalidade com que ele aparece. Como se fosse perfeitamente razoável comprar a própria despedida com frete grátis e prazo de entrega estimado.
Vivemos num tempo em que o desejo é minerado, a atenção é explorada e até o inconsciente parece indexado. Se a televisão queria nos manter acordados até o intervalo comercial, a internet quer saber do que sonhamos. E, se possível, quer monetizar o sonho antes que acordemos.
Fechei a aba. Respirei fundo. Olhei pela janela.
Lá fora, a vida seguia indiferente ao algoritmo. Um vizinho varria a calçada. Um cachorro puxava seu dono pela coleira. Um ônibus passava atrasado, como sempre. A morte, essa senhora silenciosa, continuava fazendo seu trabalho com discrição, sem precisar de anúncios patrocinados.
Talvez ainda nos reste isso: a possibilidade de desligar a tela e lembrar que nem tudo precisa ser sugerido. Que nem tudo é produto. Que a alma – apesar dos esforços – ainda não está completamente à venda.
Mas confesso: quando o café terminou, senti um leve frio na espinha.
Socorro, mundo!
