Nem todo trabalho se mede pelo que é feito, mas pelo modo como alguém permanece. Há quem cuide cumprindo tarefas. E há quem cuide ficando, escutando, sustentando presença. A diferença aparece quando o afeto entra em cena.
Durante muito tempo, meus bichos foram cuidados no Pet Care. Não sem ambivalência. Havia ali profissionais muito competentes, gente séria, preparada, técnica. Mas havia também algo que, para mim, fazia falta: calor humano e um tempo de escuta que não cabia nos protocolos. Sem contar os preços, muitas vezes difíceis de sustentar. Ainda assim, continuei indo. Às vezes, a gente permanece não por convicção, mas por ausência de alternativa. E também porque reconhece qualidade onde ela existe.
Foi justamente no Pet Care, num atendimento de pronto-socorro, que tudo mudou. Um incidente complicado com o meu gato João me colocou diante de um desses momentos em que o medo pede pressa. Então eu tive que pensar rápido e procurei o Seres, na rua Frei Caneca. E foi ali que conheci o Lucas Melo. A partir daquele encontro, sem exagero, nossa vida começou a mudar de direção.
Lucas cuidou dos últimos tempos do João com uma delicadeza que não se aprende em manual. Depois vieram Chico e Cacilda, igualmente acolhidos como quem recebe alguém da própria família. Houve visitas em casa, mensagens fora de hora, atenção sem pressa. Em algum ponto do caminho, ele deixou de ser apenas um profissional e se tornou amigo. Então o Seres passou a ser meu porto seguro não por uma placa na porta, mas por causa dele.
Foi também ali que apareceu a Gabriela Rufino. Estagiária, estudante de veterinária, dessas pessoas que parecem chegar já carregando uma luz mansa. Há algo de raro na doçura quando ela não é frágil, mas firme. Gabi tem isso. E Lucas também entende desse idioma. Talvez por isso os dois tenham se encontrado. Começaram a namorar quase sem anúncio, como acontecem as coisas boas. Quando a gente percebe, já está acontecendo há um tempo.
Ontem fomos almoçar juntos. Temos feito isso com frequência, descobrindo restaurantes, dividindo escolhas, exercitando esse convívio que não tem obrigação, só vontade. A escolha foi um árabe no Largo do Paissandu. Comida boa, conversa melhor ainda. Eles fecham agora, em abril, no dia 3, um primeiro ciclo de namoro. Lucas, prestes a fazer 30 anos, mergulhado numa especialização em cardiologia. Gabi, com 22, ainda sem saber exatamente o que virá. Há idades em que não saber é um privilégio.
Mas há também uma pequena tristeza no ar: Gabi vai se desligar do Seres para cumprir o estágio exigido pela faculdade. A clínica perde uma grande profissional. E eu, confesso, com aquele egoísmo honesto de quem ama, que fico com medo de perder os dois. Porque, se for dito sem rodeio, minha crença no Seres é feita de gente. É feita deles.
E hoje Lupita será castrada. Enquanto escrevo, meu coração está apertado, apertado. Não por desconfiança, mas justamente pelo contrário. Porque quando a gente confia de verdade, também se permite sentir. E sentir, como sabemos, é sempre um risco bonito.
