“SONHOS DE EINSTEIN”, DE ALAN LIGHTMAN: LINGUAGEM DELICIOSA E PERTURBADORAMENTE POÉTICA

A multiplicidade da natureza e a temporalidade da existência também aparecem como temas recorrentes na obra

Iniciei este ano com alguns problemas sérios de saúde. Foi quando eu senti medo. Muito medo. Naqueles momentos, comecei a pensar no tempo. No tempo que estaria escorrendo; no tempo que eu vivia e, em alguns casos, deixava de viver porque pensava no fim; no tempo que escorria das minhas mãos assim, como algo incontestável.

Foram meses de apreensão e coração apertado. Foi o Dráuzio Varela que apareceu em algum momento, me indicando um novo caminho, acendendo uma luz. Costumo dizer que o Dráuzio me deu um bônus e que acabei ganhando mais uma chance da vida; uma sobrevida, portanto.

Foi aí que eu recebi um presente do meu amigo Alexandre Schneider. Um pequeno livro, edição bem cuidada, de um autor que, até então, eu não conhecia.

O livro é “Sonhos de Einstein” (Companhia das Letras, 176 págs., R$ 32,90), lançado no Brasil em 2009, já em sua 10ª impressão. Seu autor, o americano Alan Lightman, é astrofísico e professor de física e ciência.

Eu ainda demorei um tempo para começar a lê-lo. Estava, naquele momento, atarefado demais, disperso demais. E, numa pequena vista d’olhos, já tinha entendido o que iria encontrar pela frente.

No entanto, o que de fato ocorreu foi muito maior do que a minha expectativa poderia supor.

Embora, para escrever a obra, Lightman crie a personagem de Einstein e tente imaginar o jovem Albert aos 26 anos, em 1905, recém-formado e vivendo na cidade de Berna, na Suíça, trabalhando em um escritório de patentes, o verdadeiro e grande personagem do livro é o tempo.

E, desde o início, o tempo já é apresentado como elemento absoluto. O relógio, pacato e sistemático, também está sempre ali. Assim, imediatamente entendemos que os seres podem ser e agir de formas e maneiras absolutamente imprevisíveis. Mas isso jamais poderia acontecer com o tempo, sempre previsível e irrefutável.

A multiplicidade da natureza e a temporalidade da existência também aparecem como temas recorrentes na obra. São colocadas e questionadas a todo o instante.

O enredo do livro, que eu não conseguiria catalogar em nenhum gênero, gira em torno dos “sonhos perturbadores, todos eles ligados aos mistérios do tempo e do espaço”, os quais o jovem Albert começa a ter.

Embora fascinante, o livro é cruciante, doloroso mesmo. Porque, ao nos confrontar com o tempo, o autor desnuda nossa própria imprevisibilidade. Principalmente quando entendemos que ele, o tempo – sempre ele! –, é, ao contrário de nós mesmos, irrefutável, previsível. Sempre.

Logo no início da obra, Lightman escreve:

Neste mundo, o tempo é como um curso de água, ocasionalmente desviado por algum detrito, por uma brisa que passa. De vez em quando, algum distúrbio cósmico fará com que um riacho de tempo se afaste do leito principal para encontrá-lo rio acima. Quando isso acontece, pássaros, terra, pessoas apanhadas no braço que se desviou são repentinamente transportadas para o passado.

Nos confrontamos aí com a pluralidade do tempo. Que não precisa ser exatamente este, o momento em que escrevo este artigo ou o que você o lê, por exemplo. Mas um outro, perdido na imensidão do universo, existindo, repartido em suas multiplicidades. Espécie de tempos diferentes em universos paralelos. Ou, como classificaria a Semiótica de Charles Sanders Peirce, a Primeira Idade, a emoção quase virginal despertada diante de uma cena, um fato, uma observação. Antes mesmo da formação de um conceito a respeito daquilo que se vê. Enfim, o tempo em sua forma mais pura, simplesmente acontecendo.

E Lightman é um grande poeta. Seus relatos, com elegância e pungência impressionantes, são profundos e fazem refletir. Mas a tristeza que me referi acima aparece também como redenção. Afinal, enquanto o tempo simplesmente passa ou acontece, não se sabe onde ele irá acabar: se em esperança ou desespero. Eu, particularmente, prefiro apostar na primeira hipótese. Veja aqui:

Considere um mundo em que a relação entre causa e efeito é irregular. Às vezes, a primeira antecede o segundo, às vezes o segundo antecede o primeiro. Ou talvez a causa seja sempre no passado e o efeito para sempre no futuro, mas passado e futuro estão entrelaçados.

Ainda que em vias um pouco tortas, perceber que o tempo pode indicar uma outra possibilidade também é reconfortante. Não importa se estamos conectados única e exclusivamente com o pensamento abstrato. Porque a abstração estará sempre conectada com o concreto, o único lugar onde ela poderá ser percebida.

“Sonhos de Einstein” é leitura obrigatória. Encantadora. Obra que faz refletir. Especialmente porque, com uma linguagem deliciosa e perturbadoramente poética, causa espanto, mas aponta caminhos.

TRECHO:

Imagine um mundo em que não há tempo. Somente imagens.

Uma criança à beira do mar, enfeitiçada pela primeira visão que tem do oceano. Uma mulher de pé em uma sacada de madrugada, cabelos soltos, vestindo folgadas roupas de dormir de seda, seus pés descalços, seus lábios. O arco da galeria perto da fonte Zahringer na Kramgasse, arenito e ferro. Um homem sentado na quietude de seu estúdio, segurando a fotografia de uma mulher; há dor no olhar dele.

Uma águia-pescadora emoldurada no céu, as asas abertas, os raios do sol perfurando suas penas. Um menino sentado em um auditório vazio, seu coração em disparada como se estivesse no palco. Pegadas na neve em uma ilha no inverno. Um barco na água à noite, suas luzes tênues na distância, como uma pequena luz vermelha no céu negro. Um armário de remédios trancado. Uma folha no chão no outono, vermelha, dourada e marrom, delicada.

Uma mulher agachada, esperando entre arbustos próximos à casa do ex-marido, com quem precisa conversar. Uma chuva leve em um dia de primavera, em um passeio que será o último passeio que um jovem fará no lugar que ele ama. Poeira em um peitoril de janela. Uma pilha de pimentões na Marktgasse, amarelos, verdes, vermelhos. Matterhorn, o pico todo branco, cujas pontas forçam passagem para dentro do solido céu azul, o vale verde e os chalés de lenhadores.

O buraco de uma agulha. Mofo nas folhas, cristal, opalescente. Uma mãe em sua cama, chorando, cheiro de manjericão no ar. Uma criança em uma bicicleta na Kleine Schanze, sorrindo o sorriso de uma vida. Uma torre para preces, alta e octogonal, sacada aberta, solene, rodeada de brasões. Vapor subindo de um lago no início da manhã. Uma gaveta aberta.

Dois amigos em um café, o lustre iluminando o rosto de um dos amigos, o outro na penumbra. Um gato olhando um inseto na janela. Uma jovem em um banco, lendo uma carta, lágrimas de contentamento em seus olhos verdes. Um amplo descampado, delimitado por cedros e espruces. Luz do sol, em ângulos abertos, rompendo uma janela no fim da tarde. Uma imensa árvore caída, raízes esparramadas no ar, casca e ramos ainda verdes. O branco de um veleiro, com o vento de popa, velas se agitando como asas de um gigantesco pássaro branco.

Um pai e um filho sozinhos em um restaurante, o pai, triste, olhos fixos na toalha de mesa. Uma janela oval, de onde se avistam campos de feno, uma carroça de madeira, vacas, verde e púrpura na luz da tarde. Uma garrafa quebrada no chão, líquido marrom nas fissuras do piso, uma mulher com os olhos vermelhos. Um velho na cozinha, preparando o café da manhã para o neto; o menino à janela com os olhos fixos em um banco pintado de branco.

Um livro surrado sobre uma mesa ao lado de um abajur de luz branda. O branco na água quando quebra uma onda, erguida pelo vento. Uma mulher deitada no sofá, cabelos molhados, segurando a mão de um homem que nunca voltará a ver. Um trem com vagões vermelhos, sobre uma grande ponte de pedra, de arcos delicados, o rio que sob ela corre, minúsculos pontos que são as casas à distância. Partículas de poeira flutuando nos raios de sol que entram por uma janela.

A pele fina que recobre um pescoço, fina o suficiente para se sentir o pulsar do sangue que sob ela corre. Um homem e uma mulher nus, envolvidos um no outro. As sombras azuis das árvores numa noite de lua cheia. O topo de uma montanha com um vento forte constante, os vales que se esparramam por todas as suas bordas, sanduíches de carne e queijo. Uma criança se esquivando do colo do pai, os lábios do pai retesados de raiva, a criança sem entender.

Um rosto estranho no espelho, grisalho nas têmporas. Um jovem segurando um telefone, estupefato com o que está ouvindo. Uma foto de família, os pais jovens e tranquilos, as crianças trajando gravatas e vestidos e sorrindo. Uma pequeníssima luz, visível por entre as árvores de um bosque. O vermelho do pôr-do-sol. Uma casca de ovo, branca, frágil, intacta. Um chapéu azul na praia, trazido pela maré. Rosas aparadas flutuando sob uma ponte, próximas a um castelo que vai emergindo.

O cabelo ruivo de uma amante, selvagem, traiçoeiro, promissor. As pétalas púrpuras de uma íris na mão de uma jovem mulher. Um quarto com quatro paredes, duas janelas, duas camas, uma mesa, um lustre, duas pessoas de rostos vermelhos, lágrimas. O primeiro beijo. Planetas no espaço, oceanos, silêncio. Uma gota d’água na janela. Uma corda enrolada. Uma vassoura amarela.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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